Infanciamente - a infância de hoje e a infância de outros tempos

Algodão doce

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)...

Celso Sisto*

Dia desses vi essas nuvens coloridas de açúcar! E rapidamente fui catapultado para o passado! Entrei voando no circo da minha infância, quando, acompanhado de pai e mãe, e irmãos, fui cair sentado na cadeira de armar, bem perto do picadeiro, onde no globo da morte, com roncos ensurdecedores, um dos super-heróis circenses, fazia-me tremer e enfiar a mão, provavelmente de nervoso, naqueles fios açucarados, enrolados no palito!

Comia-se aos bocados! Puxando e enfiando os bolos na boca. E rapidamente tudo derretia. E não importava a cor, porque não afetava em nada o gosto. Mas ainda assim, eles eram azuis e rosas, os mais comuns!

Mas também parecia que o doce já vinha com etiqueta de gênero: os meninos preferiam os azuis, e as meninas, os rosas! Não me espantaria em nada se a divisão cromática do mundo tivesse sido inspirada no caso do algodão doce!

Agora, imagina se isso acontecesse com o resto das guloseimas? Coxinha, pastel e risolis seriam coisa de menino? E cachorro-quente, empada e esfiha, coisa de menina? E com os doces? Talvez beijinho e bem casado fossem coisa de menina! E brigadeiro e olho de sogra, coisa de menino! Mas, o fato é que nem só de sal e açúcar vive o homem (e a mulher, claro)!

Naquele dia, no circo, recompensado pelo rolo da estopa-açucarada, tive vontade de levantar e gritar para o homem: estamos no tempo do algodão doce! Estamos no tempo do algodão doce! Era como se eu quisesse lhe dizer: aproveita! usa a imaginação! inventa asas e sai voando! Ou talvez fosse já uma maneira de reagir à força motriz, que associada ao ronco do motor, produzia medo.

O mistério do açúcar derretido virar fios ainda ronda minha vida. Enredar-se em teias, lambuzar-se a ponto de lamber os dedos, evoca ocasiões especiais: roda-gigante e algodão doce; pedalinho (para o não pedalante, é claro!) e algodão-doce; jogo de futebol e algodão-doce; chegada de Papai Noel e algodão-doce! Ida ao Jardim Zoológico e algodão-doce!

Pensando bem, o mistério ia além de entender como os cristais de açúcar podiam virar novelo de fios comestíveis e ainda assim servirem para tecer a minha história.

Serviam também para premiar minha conduta. Arriscava ficar comportado e tirar notas boas, só por um punhado de balas Juquinha, Frumelo, chocolate Bebê e otras cositas más! Claro, o mundo familiar era dos interesseiros! Mas era um interesse inofensivo, que não prejudicava ninguém! A não ser a mim mesmo, que fiquei para sempre refém das delícias do açúcar!

Devo mesmo ser um egresso da casa de doces de João e Maria. Nem sei como a tal casa ainda está de pé, de tanto que andei por lá na infância! Alguns anos depois, teria poupado os suspiros, porque para curar uma hepatite, abocanhei-os até o desespero!

Mas, pensando bem, prefiro um gordo suspiro, cheirando a limão e saindo do forno, do que esses salgadinhos em pacotes metalizados que andam barulhento nas mãos das crianças! Pelo menos suspiro faz ponte com a saudade! E a saudade é colorida, redonda e também pode vir num palito, pra gente segurar com as mãos e ficar olhando bastante antes de lamber com gosto!

Celso Sisto, autor deste texto, também é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.


1 comentário

  1. O que posso deixar aqui é um longo suspiro e agradecer a boa leitura. Fiz uma rápida, mas saborosa viagem à rua cel. Jaime da Costa Pereira, lugar onde vivi às margens da av. Ipiranga meus melhores momentos na infância. Um beijo!