Marina Colsanti e Affonso Romando de Sant’Anna cruzaram biografias para falar das histórias de suas famílias
Claudia Lins
Foi como estar entre amigos, num bate-papo gostoso. Falando de suas família, o casal de escritores compartilhou com o público do simpósio internacional de contadores de histórias relatos pessoais e poéticos da trajetória de suas vidas.
Cruzando biografias, Affonso declamou o poema Geração 1937, citando os acontecimentos históricos do ano em que ele e Marina nasceram. Falando de criação em família, o autor emocionou o público com o poema O Pai, reconstruindo a imagem do próprio pai, um homem religioso, rigoroso, fraterno, um sargento de milícias.
Procuro em meus papéis
nos baús familiares
um perdido testamento…
Nas frases do poema dedicado ao pai, aos poucos Affonso foi se revelando por inteiro. Filho de mãe imigrante e pai mineiro da Zona da Mata, nascido numa família de seis irmãos, criado sob o rigor da religião protestante, estava lá um adolescente de 17 anos, designado a aspirante do ministério, quase um pastor.
A vida seguia o curso previsível das obrigações impostas pela religão: evangelizar, converter e arrebatar seguidores para sua verdade. Os domingos eram vividos entre cultos na igreja, nas delegacias, hospitais, repletos de orações e almoços em família, onde se saboreava a macarronada fria.
Ao tempo em que o público se via na história pessoal do adolescente em seus conflitos religiosos, surgia nas memórias de Colasanti uma Marina ainda criança, vivendo a aventura de habitar a África. Nas lembranças de sua terra natal, as memórias das cores e aromas da cidade alta, a Eritreia, um país localizado no chifre da Árica, na fronteira com o Sudão a oeste, e com a Etiópia, ao sul, bem pertinho do Mar Vermelho.
Os domingos de Marina eram diferentes. Nada de almoço em família, pois o pai, aventureiro, estava no mundo, na guerra ou vivendo as aventuras pessoais de seu próprio descobrimento. E ela, menina, saboreava a fantasia de viver na África com suas histórias de caçadas e festas populares. Mais tarde, era vez de sonhar com a vida no Brasil, uma terra desconhecida, mas que a menina Marina, assim descreveria em sua redação:
“Dizem que o Brasil é um país fabuloso, com plantações de algodão que forram o chão como a neve, e campos de café, bambuzais, cobras, macacos e outros animais terríveis”.
Sonhando em saborear as tâmaras e conhecer a gente exótica brasileira, assim desembarcou a menina Marina no Brasil. E a cada frase de suas memórias compartilhadas, o público mais e mais se deleitava.
“O dia e a noite, assim posso definir as diferentes personalidades de meu pai e do pai de Affonso. Meu pai nunca me deu nenhum conselho de sabedoria, mas me apresentou aos escritores russos, me deu de presente a literatura americana e me fez para sempre amante da poesia”, disse Colasanti.












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