Com a palavra, os contadores de histórias!

“São esses lusofalantes que estão por aí, pelo mundo, contando as nossas histórias, nossas raízes e memórias“, Benita Prieto

Claudia Lins

Transpor as fronteiras da língua literária, fazer a partilha cultural e construir uma poética afrobrasileira. Para todas essas possibilidades não existem respostas prontas. Se existem, não estão nos livros, mas eles  vivenciam os caminhos que conduzem a cada uma dessas sentenças, transformando-as em realidade cotidiana.Quem são eles? Celso Sisto, Antônio Rocha, Maurício Leite, Cristina Taquelim e Angelo Torres, os contadores de histórias sem fronteiras.

Convidados especiais para ministrar oficinas e rodas de conversa do segundo dia do simpósio internacional de contadores de histórias, realizado até 13 de novembro, no Sesc Copacabana, Rio de Janeiro, cada um pode compartilhar com o público sua experiência de vida no universo da contação.

Cristina lembrou o importante papel exercido pelos narradores da oralidade, a gente que vive nas aldeias, comunidades rurais e povoados, preservando a memória cultural de cada povo, a partir das histórias transmitidas por gerações.”Em todos os lugares, os povos tiveram a necessidade de se comunicar oralmente, usaram a criatividade para construir brinquedos e objetos artesanais, que traduzem sua cultura. Qual é a nossa identidade? Precisamos dar voz aquelas pessoas que tem suas histórias para contar!”, provocou a contadora portuguesa.

“Considero um privilégio poder contar histórias da gente que vive nas comunidades rurais, nos países de língua portuguesa, e é isso que vocês contadores devem multiplicar em seu trabalho com as crianças. Construam pontes com nossos velhos narradores. Dar voz social aos velhos é dar continuidade a essas histórias através das gerações”, disse Taquelim.

O brasileiro radicado nos Estados Unidos, Antonio Rocha, contou capítulos de sua trajetória como mímico, falou de como expressão corporal e voz se unem para criar um milhão de personagens. “Meu objetivo ao contar histórias é mostrar que somos os mesmos, não importa em que parte do mundo vivamos. Por meio das histórias e contos estou quebrando fronteiras e me sinto abençoado por ser um contador de histórias”, afirmou Rocha.

Na roda de conversa, mediada por Benita Prieto, momentos de irreverência e muito bom humor foram conduzidos por Maurício Leite, que revelou aos contadores algumas de suas boas histórias como promotor de livro e da leitura em áreas isoladas do planeta. Trabalhando atualmente com comunidades africanas, Maurício conhece como ninguém o poder que a história ilustrada e bem contada exerce sobre uma criança. “Só no Brasil você pode encontrar uma literatura infantil tão exuberante, essa riqueza de títulos… E para crianças que vivem tão isoladas do mundo, esses livros são como janelas que se abrem”.

África e Brasil

De São Tomé e Princípe, o africano Angelo Torres, contou sua trajetória como ator e os caminhos acidentais que o conduziram ao universo da contação de histórias. “Por sorte, ou por azar, até os 14 anos vivi em cinco países diferentes, e a única fronteira que sempre tive de atravessar foi a da língua, pois a cada cultura era preciso estabelecer novos contatos de amizade, compreender o jeito de ser daqueles povos. Por tanto, se a fronteira realmente existe, é a língua falada”, descreveu Angelo.

Cumprindo o papel de derrubar fronteiras, o carioca Celso Sisto, hoje vivendo e produzindo a mil por hora, no Rio Grande do Sul, falou de sua experiência de mais de 20 anos com a literatura infantil, estimulado pelo trabalho dos contadores de histórias, colecionando contos populares africanos.

Autor e contador, que vive no universo acadêmico a realidade da pesquisa para legitimar a literatura, Sisto anunciou ao público do simpósio sua mais recente conquista: a tese que mistura influências africanas para tentar descobrir se existe uma poética afrobrasileira.

O autor partiu de uma viagem literária pelos contos tradicionais e populares da África, a partir da figura do contador de histórias rumo aos caminhos brasileiros por onde esses contos se espalharam. “Essa pesquisa revela todo mapeamento dos contos tradicionais africanos na literatura brasileira e traça um painel a partir do trabalho de folcloristas como Sílvio Romero, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Monteiro Lobato, até chegar a obra dos escritores contemporâneos, Joel Rufino dos Santos, Rogério Andrade Barbosa e Reginaldo Brandi”. A tese de Celso Sisto deve chegar aos leitores, ano que vem, num livro que será editado pela Paulinas.

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