Representatividade afro-brasileira e indígena

Defender a presença da diversidade étnica literária nas escolas é educar gerações para conviver com pessoas e culturas diversas

Por Claudia Lins*

“Precisamos criar um ambiente real de diversidade literária em nossas escolas!”

Penso nisso enquanto busco traduzir em palavras sentimentos que há muito me inquietam. Recentemente, vivenciei numa feira escolar na cidade de Maceió, onde moro, comportamentos de crianças muito pequenas, com quatro, cinco anos de idade, que revelam total rejeição a presença da figura humana afro-brasileira nos livros infantis.

“Não gosto dessa cor”, foi o que me disse um garotinho ao apontar para a capa de um de meus livros, NYUNI o menino pássaro, ilustrado pela mineira Denise Rochael. Tal afirmação surgiu após longa insistência da mãe dele para que ele levasse o livro para casa. Custou aquele garotinho de pele branca admitir o real motivo pelo qual não queria o livro presenteado por sua mãe.

Minutos antes desse diálogo acontecer, a mãe dele e eu, conversávamos a respeito de uma realidade que como formadora de leitores, tenho percebido a cada ano mais intensa, especialmente no estado de Alagoas, onde vivo, produzo e busco inspiração para meus projetos criativos. Eis o que tenho sistematicamente observado: crianças e adolescentes demonstrando rejeição ou profundo desinteresse por livros de temática africana ou afro-brasileira, que apresentem pessoas negras na capa ou discorram sobre narrativas indígenas.

A mãe daquele garotinho me ouviu falar sobre o que aparentemente nunca havia se dado conta. Disposta a incentivar um novo olhar a respeito da diversidade  em sua própria casa, comprou o livro e me pediu um autógrafo especial para o filho de cinco anos. Também comprou exemplares de outros títulos, mas por ter escolhido seu primeiro livro com um protagonista negro na capa, saiu com o sentimento de uma escolha feliz.

“Depois trago ele aqui para vocês tirarem uma foto”, ela me disse. Não demorou muito e na hora do intervalo, retornou com o filho, que não escondia sua indignação pelo presente. Bastante chateado, ele repetia: “não quero esse livro, não gosto dessa história…”

Percebendo e já compreendo o que acabara de acontecer, pude intervir com cuidado, enquanto o garotinho insistia para me devolver o livro.

“Mas você ainda nem leu a história. Por qual motivo não gostou?

“Não gosto!”, ele respondeu empurrando o livro para eu aceitar de volta.

Com carinho e firmeza, prossegui com minhas indagações:

“Mas então me explique para que eu possa entender. O que tem nessa história que você não gosta? Pode dizer! Não vou ficar chateada!”

A mãe me olha como se alguém tivesse acabado de acender uma luz em seu pensamento. Noto o quanto está constrangida, mas meu objetivo é argumentar com o menino em busca de uma compreensão sobre sentimentos que mesmo a ele custam ser admitidos.

“Não quero esse livro!” – ele responde tentando afastar o livro, querendo dar a questão por encerrada.

“Olha, não posso ficar com o livro porque ele já está autografado. Mas tem certeza de que não quer me contar o que tem nessa história que você não gosta?”

Dessa vez é a mãe a intervir na conversa:

“Não, ele vai levar o livro. É legal, a mamãe vai ler pra você!”

“Não quero esse livro, já disse!”

Percebendo que o menino está a ponto de dizer o real motivo de sua rejeição, pergunto novamente:

“Mas me diga, o que tem esse livro que você não gosta?”

E ele, já sem saber o que dizer, e sem querer prolongar nossa conversa, admite, apontando para o personagem negro na capa do livro:

“Não gosto dessa história, não gosto dessa cor!”

Pausa, constrangimento profundo da mãe… Faço minha última intervenção carinhosa:

“Não posso ficar com esse livro porque o seu nome está escrito nele, mas a mamãe vai levar e ler para você e você vai ver que todos nós temos uma boa história para contar, não importa a cor da nossa pele”.

O menino e a mãe vão embora com o livro. A mãe volta e me diz num aperto de mão:

“Parabéns por seu trabalho!”

Alguns minutos depois, na mesma feira, outra situação. Vejo se aproximar do estande onde me encontro, uma mãe negra que logo se sente atraída por NYUNI, o menino negro da capa do livro. O filho, aluno da classe do maternal ou jardim, aparentando uns 4 anos, escolhe um de meus lançamentos, o livro, Dez Elefantinhos do Balacobaco. Ele bate o pé quando a mãe diz que vai levar o NYUNI.

“Não quero esse livro!

“Mas é legal, filho, O menino pássaro!”

“Não quero, mãe. Esse não quero”.

Ela tenta em vão mostrar as belas ilustrações e a história. Os dois debatem num impasse, mas a mãe é firme:

“A mamãe vai levar o livro dos Elefantinhos, mas também vai levar esse”.

O menininho esperneia. Então, sua mãe diz que vai levar para Gabriel, o irmão dele. Ainda assim, o pequeno continua rejeitando o livro escolhido.

“Não quero, não quero”. – ele choraminga

A mãe insiste e compra os dois livros, mesmo sob protestos. E eu pisco para ela, numa tentativa de salvar aquela situação:

“Vamos combinar o seguinte: o livro dos Elefantinhos, a mamãe está comprando para você e o do NYUNI, a tia Claudia vai dar de presente para o Gabriel”.

“Mas eu não quero esse livro”. – ele ainda esbraveja.

Convicta de sua escolha, essa mãe comprou o livro para o outro filho, pediu autógrafo e o levou para casa, apesar da recusa de seu caçula. No entanto, a segunda situação de rejeição no mesmo dia, dessa vez protagonizada por uma criança de pele negra, reflete o que muitas escolas e famílias vivenciam sem tentar transpor ou ao menos tentar compreender e ressignificar. Crianças e adolescentes resistentes aos livros que se relacionem com a cultura afro-brasileira de certo modo nos enviam um importante alerta. Em muitas situações, percebo que eles nem se permitem a curiosidade de tentar conhecer os exemplares desses livros, como fazem com outros títulos. Simplesmente não se sentem atraídos por livros ilustrados que retratem essa diversidade.

Se é correto dizer que uma criança não nasce racista, também é motivo de preocupação estarmos atentos aos comportamentos que podem reforçar atitudes racistas e preconceituosas entre nossas crianças brancas, negras ou indígenas. Tanto nas escolas quanto nas famílias, precisamos educar o nosso olhar para contemplar a diversidade de etnias e culturas em nossas escolhas literárias, nos brinquedos que apresentamos ou nas afirmações positivas que empoderem o público infantojuvenil contra o que a sociedade e o marketing de consumo cotidianamente nos impõem: “a cultura do embranquecimento”.

Seja nos brinquedos que presenteamos, nos desenhos animados, nas releituras dos clássicos onde príncipes e princesas e super-heróis seguem o estilo Disney, estamos reafirmando uma mensagem para nosso público infantojuvenil. Estamos dizendo a essas crianças e jovens: que o que tem valor está baseado numa cultura branca. Desse modo, torna-se compreensível que mesmo nossas crianças e jovens afro-brasileiros ignorem a auto-imagem refletida nos livros ou brinquedos, por desejarem ser representados da maneira como a sociedade julga ser a ideal.

Daí a importância de apresentarmos esses personagens negros ou indígenas cada vez mais misturados como somos todos nós brasileiros, diversos e não segmentados aos temas africanos, especialmente se levarmos em conta como foi construído no nosso imaginário brasileiro a presença do negro na sociedade.

O meu lado jornalista está sempre observando, ouvindo, apurando o que vai na cabeça das pessoas. Como autora, essas experiências me fazem pensar enredos e personagens. Mas minhas observações sobre o que escrevo vêm da convivência de alguns anos no ambiente escolar e das perspectivas que traduzo a partir de comentários e comportamentos de leitores infantojuvenis.

Escrevo histórias inspiradas na cultura afro-brasileira ou que reafirmem a presença de diferentes etnias e culturas, porque desejo contar boas histórias. Não quero fazer disso uma bandeira existencial. Mas me coloco no lugar de milhares de crianças afro-brasileiras que não se vêem representadas na literatura com toda sua beleza e diversidade. As editoras também precisam levar essa realidade em conta quando escolhem publicar suas histórias pensando nesse público.

Para além dos conteúdos pedagógicos, dos temas obrigatórios por lei ou ditados pelos programas governamentais de compra de títulos, existe um leitor consumidor que quer se ver refletido nessa literatura: humano, diverso e belo. E nisso também consiste o grande desafio futuro para escolas e famílias. Enquanto educadores, precisamos estar atentos a essa falta de representatividade. Isso me inquieta muito mais por viver em Alagoas, terra onde existiu Zumbi e o Quilombo dos Palmares, o mais importante quilombo brasileiro, ícones que deveriam representar fonte de orgulho supremo e heroísmo para gerações de alagoanos. Mas no século XXI, nessa terra ainda se chama negro de “moreno”, pois culturalmente, referir-se a alguém como sendo negro traduz-se ofensa.

Enquanto isso, na vizinha Aracaju, cidade do estado de Sergipe, vi meninos e meninas louros, com seus cabelos de cachinhos dourados, crianças de diferentes idades, formarem filas para comprar NYUNI e em tom animado repetirem: eu quero esse livro!”

E por acreditar que a literatura pode libertar mentes, não importa a idade, sigo em minha trajetória de escrita e de editora, atenta a todas essas provocações. Sempre a refletir sobre os caminhos a serem construídos para conduzir leitores a riqueza da diversidade humana. E sonho como uma escola brasileira aberta a essa reflexão, com desejo real de oportunizar um ambiente respeitoso e realmente diverso.

Claudia Lins, carioca com coração enraizado em Maceió,  é autora com mais de 15 livros infantojuvenis publicados, jornalista, especialista em Literatura Infantojuvenil e Contação de Histórias na Escola pela Uniara (SP), atua em programas de formação de leitores, coordena a Rede Ler e Compartilhar, a editora e o portal Mundo Leitura.

 

 

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