Por Rosinha
“A cultura de um povo é sempre uma fala. É uma língua que o uso torna coletiva. São símbolos. Através dela as pessoas dizem e querem dizer. A mulher poteira que desenha flores no pote de barro que queima no forno do fundo do quintal sabe disso. Potes servem para guardar água, mas flores no pote servem para guardar símbolos. Servem para guardar a memória de quem fez, de quem bebe a água e de quem, vendo as flores, lembra de onde veio. E quem é. Por isso há potes com flores, Folias de Santos Reis e flores bordadas em saias de camponesas.” Carlos Rodrigues Brandão
Num momento onde cada vez mais aumenta o número de refugiados em torno do mundo, onde cada vez mais os nossos povos tradicionais estão perdendo suas terras, seus costumes e suas vidas, é preciso lembrar de onde viemos. E quem somos.
A literatura para crianças e jovens é esse lugar que nos lembra de onde viemos e quem somos.
Tem sido assim desde o início, quando Monteiro Lobato traz a cultura popular para literatura infantil. Assim como Cecilia Meireles, que em sua atuação junto ao Movimento Folclorista, em seus versos, em seus traços de ritmos e gestos da cultura negra e em sua função de professora prioriza o folclore no convívio com as crianças. Assim também se dá com Elias José que tanto nos brindou com suas releituras e recriações da poesia popular e com Ana Maria Machado em seus incontáveis recontos das Histórias à Brasileira.
No que tange os ilustradores brasileiros, na obra de Angela Lago a presença da cultura popular acontece mais no texto que na imagem. Em De morte e Sua Alteza A Divinha, Angela reconta história de morte e brinca com as adivinhas, buscando imagens em Albrech Durer e em ilustradores anôninos. Utiliza a aquarela em Uni Duni e Tê e cria a narrativa tendo como o fio condutor as cantigas de roda, assim como em Chiquita Bacana onde utiliza a estrutura do trava-línguas tanto no texto quanto na intrincada composição da imagem. Em Muito Capeta, com um desenho em linhas feito direto no computador, encontramos uma estrutura narrativa do conto popular, que podemos observar em alguns cordéis de Leandro Gomes de Barros. São vários outros recontos como Indo não sei onde, buscar não sei o quê, A Casa do Bode e da Onça, O Bicho Folharal, A Flauta do Tatu, João Felizardo, o Rei dos Negócios, com técnicas diversas.
Podemos começar a ver os registros visuais da cultura popular nos compêndios de adivinhas, contos, trava-línguas, parlendas, bestiário e ditos populares de Ricardo Azevedo onde as imagens em nanquim nos remetem à xilogravura. E imerso no universo do cordel, Jô de Oliveira traz em seu traço características similares às que as goivas registram na madeira.
Mas é com o Roger Mello, que a imagem advinda da cultura popular ganha uma nova dimensão. Nos livros Bumba-meu-boi, Cavalhada de Pirinópolis, Maria Tereza e na coleção João na Estrada, a imagem passa a ter uma identidade autoral, onde Roger incorpora características de cor, morfologia e composição da cultura popular e cria um vocabulário visual próprio. Assim como Roger, André Neves em Sebastiana e Severina e Maroca e Deolindo, entre outros, recria a iconografia popular.
São todos artistas que admiro profundamente e são minhas referências.
E eu? O que preciso me lembrar?
Que cresci em uma rua sem asfalto, onde todos os dias brincava de roda, academia, pula corda, esconde-esconde, barra-manteiga, barra-bandeira, e horas e horas de contação de história até tarde da noite. Que tinha uma coleção de contos de fada, presente da minha mãe, que todas as semanas me trazia um novo exemplar de uma coleção chamada Disquinho, e que eu ouvia as histórias todas as tardes numa vitrola de capa vermelha. Que meu pai me levava para dançar ciranda, que meu avô dançava forró, que minha avó fazia doces, bordava e costurava, assim como minha mãe, minha madrinha, minhas tias e minhas primas. Família de mulheres que fazem belezas e gostosuras com as mãos. Particularmente não sou prendada em nenhum desses afazeres. E talvez seja isso o que eu preciso me lembrar. Que sou parte e continuidade dessas mulheres, e por isso a necessidade de trazer esse universo para os livros.
Mas não só por isso. Também por viver em duas cidades festivas e coloridas, que são Recife e Olinda, e viver em meio aos maracatus, aos bois e aos cavalos marinhos. Da emoção ante a beleza da simplicidade e da alegria das crianças e dos senhores de idade dançando cavalo marinho. Do movimento que me embala quando danço uma ciranda ou do pêlo arrepiado quando o som ancestral do tambor do maracatu penetra nas minhas entranhas.
Esses são meus símbolos, minha língua, meu arsenal. É nesse universo que me reconheço.
Vem dessas cidades, dos mercados, das festas, do artesanato, da costura, dos bordados, da culinária, da literatura, da música, as cores e as formas que compoem meus livros. Textos e imagens. Vem das brincadeiras o sentimento de unidade e de plenitude que lanço mão na hora do trabalho. Vem também as dúvidas e as inseguranças, características no meu processo criativo. Memória, trabalho e brincadeira se misturam na hora da criação.
Assim sugiu o uso dos tecidos. Vendo minha mãe e minha filha escolherem o tecido para um vestido de festa de 15 anos, enquanto pensava numa solução estética para Maria Borralheira. Depois foram as chitas que compoem o De Alfaias a Zabumbas, a cambraia bordada em A menina Luzia, os bordados no linho de As horrorosas maravilhosas, os fuxicos em Caleidoscópio. Do cordel veio o traço preto e incontanste e as cores saturadas da Coleção Akpalô – Cultura Populas e as matrizes de xilogravuras da coleção Palavra Rimada com Imagem. E dos detalhes pintados nos barros do Alto do Moura, os detalhes da coleção de contos de fadas Conto Imagem.
É um risco trabalhar tanto assim com a cultura popular, principalmente num momento em que a discussão sobre o picturebook, e seus temas existenciais, anda tão em voga entre os ilustradores, ainda mais sendo nordestina? Sim, é sim. O risco de criar um estigma. Acredito que até já o tenha criado… Mas como digo sempre aos meus filhos: temos que ter raízes e antenas. E como meu fazer inclui a diversidade e a busca, que é uma grande brincadeira, as possibilidades são ilimitadas. Mesmo que eu trilhe outros caminhos, que nesse momento desejo trilhar, sempre voltarei e revisitarei o mundo da cultura popular.
Para não esquecer de onde venho e quem sou eu.


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