Dupla autoria: processos, ideias e alguns pensamentos ao vento

paula BPor Paula Browne

Minha formação profissional vem da área das artes plásticas, onde trabalhei por mais de dez anos e na qual sempre tive interesse numa pintura bastante narrativa em que usava elementos de iconografia dos universos infantil e juvenil. O uso de ilustrações de época como imagens em que eu sobrepunha pictoricamente para criar um ambiente plástico e promover questões conceituais, acabou me permitindo que elaborasse de forma involuntária um grande vocabulário imagético e, este vocabulário tanto matérico quanto estético foi se tornando inerente a mim me possibilitando a ampliação e construção de um leque de leituras visuais.

Me tornei escritora no momento exato em que me tornei ilustradora. Meu processo envolveu maturação por diversas áreas (pintura, moda, teatro) e muitos interesses indiretos; cheguei à literatura infantil através do simples desejo de ilustrar – quando decidi pela ilustração fui à busca de textos que não tivessem sido ilustrados ou que pelo menos não estivessem num lugar comum da ilustração. Achei coisas incríveis. Passeei pelas Fábulas Italianas do Calvino, pelos Contos Tradicionais do Câmara Cascudo, Grimm, Perrault, e por aí vai. Mas não encontrei nenhuma história que naquele momento me fizesse sentir realmente confortável em criar narrativas visuais. Então, sentei-me à mesa e fiz um primeiro desenho da Macaca, olhei para o desenho e escrevi um verso para ele. Aquilo foi divertido! Então continuei. Desenho, texto, desenho, texto, desenho, texto e logo o primeiro livro da coleção estava pronto.

A Macaca nasceu com traço, cor, personalidade, humor e história para contar.

Como um personagem sai da cabeça do autor? Como ele surge? A Macaca nasceu de um desenho, mas às vezes o personagem vem de um mote. No caso da Zebra, a ideia de escrever uma história veio de um mote visual. Tudo começou com as listras que uma zebra tem e a condição de não diferenciação que estas listras promovem à nossa percepção. Zebras são listradas. Ponto. O grafismo gerou o mote. E neste caso, a formação do personagem quanto à sua identidade e personalidade não surgiu junto com a imagem, pelo contrário, a personalidade da Zebra, só foi sendo construída e percebida ao longo da feitura do texto. Conforme a história ia tomando forma, a Zebra deixava de ser zebra (um animal assustado, de natureza agressiva e pouco inteligente) e ia se definindo na sua nova natureza de personagem. Com voz própria.

Mas, de onde vem esta voz? Impossível não relacionar tudo que escrevo com uma gama de histórias vividas, seja como protagonista, ouvinte ou turista. Penso realmente que todo trabalho autoral é bastante biográfico e isto me faz concluir que todos os meus personagens, sem exceção, estão sempre dentro de mim, a diferença entre eles é se nascem de parto na água, normal, cesariana ou fórceps. A criação é uma atividade bastante curiosa, pois ao mesmo tempo em que no ato em si do criar, inventar, somos tutores, depois de a coisa ganhar vida por muitas vezes nos vemos de mãos atadas perante uma criatura que já responde por si mesma. Parece mesmo com um filho. E ainda, depois que este filho vira o objeto-livro passamos também ao papel de observador de como ele vai tecer o seu lugar no mundo e sobretudo de como o mundo vai recebê-lo e interpretá-lo.

A educação está intimamente ligada à capacidade e exercício de observação. Perceber o outro, perceber a nós mesmos, perceber o que nos rodeia no sentido mais amplo, seja através da luz que entra pela vidraça e rebatida num objeto qualquer cria sombra e vira desenho, seja através da língua falada ou escrita. A observação atenciosa fornece ferramentas preciosas para a criação e entendimento das ideias, facilita a comunicação e estimula o exercício do pensar.

Os livros da infância são impregnados de cheiros, temperaturas e afetos. Sentir-se solto em uma terra distante cheia de perigos e aventuras, traz por vezes medo, mas nunca insegurança, na medida em que o ato de ler ou de ouvir histórias é exercido por um corpo físico geralmente aconchegado. Porém, independente do conteúdo, tamanho ou estilo do texto, as histórias infantis trazem, na transversal de suas palavras e imagens, uma infinitude de referências de sentidos que ficam incrustadas no corpo emocional do leitor, sensações por muitas vezes completamente individuais. Minha escolha pela literatura infantil se dá pelo prazer de estar presente nesta construção de memórias afetivas, referências temporais e valores de um sujeito que está em formação; que está criando seus próprios mapas. A possibilidade de proporcionar um pouco de poesia, uma janela para outro olhar, um novo ângulo de percepção ou, eventualmente pontos de reflexão, é para mim objeto de enorme desafio e realização.