Na condição de ilustrador para literatura aprecio narração visual e aprendi a não fazer distinções sobre produção criativa brasileira. Sei o quanto é difícil a criação de um bom livro literário em um campo cada vez mais comercial. Sou parte de uma grupo que aprendeu a ilustrar sem formação, e dentro de parque gráfico em pleno desenvolvimento. Minha geração trabalhou com erros e acertos em período de mutações constantes. Aprendemos a olhar os mais experientes e ler as poucas teorias que haviam sobre o assunto. Felizmente a profissão ganhou asas. Recentes prêmios internacionais para Roger Mello e Marcelo Pimentel alavancam o olhar estrangeiro para nossos livros. Muitos outros já representam o país em mostras e catálogos internacionais, livros nacionais fazem caminho contrário do que foi a nossa história editorial, são traduzidos de dentro para fora do país para o reconhecimento da literatura e da ilustração brasileira.
Em relação às técnicas, minha produção não fechou-se ao ponto de apreciar imagens semelhantes às minhas ou unicamente voltadas a um só conceito ou tendências contemporâneas. Meu foco está mais centrado nos mecanismos para construção da narrativa visual. Técnica para mim é apenas conforto e prazer de execução do artista. Tento compreender e apreciar livros com imagens distintas umas das outras, e entendê-las apenas como formas de contar uma história e, nos seus entremeios, percebo a diversidade na ilustração brasileira.
Talvez por atravessar o país de Recife a Porto Alegre, vivenciei o que antes era para mim apenas um registro histórico. O papel da colonização na região sul do Brasil; com usos, costumes, e uma cultura visual imigrante de várias etnias e que agrega parte importante da nossa história. Neste sentido, temos um grande conjunto de representações culturais e visuais que mostram o povo brasileiro sem uma representação homogênea, e sim uma mescla de diferentes vertentes que formam, juntas, esse Brasil multifacetado. Com mistura de cores, raças, crenças, formas e conceitos onde as representações visuais também tornaram-se pluriétnicas e pluriculturais.
Nossa história ilustrada em livros para infância é recente, jovem mesmo, os registros existentes apontam que os primeiros ilustradores surgiram por volta de 1905 para revista Tico-Tico, um suplemento para crianças com contos, poesias e quadrinhos. Como literatura em 1921, com A menina do Narizinho arrebitado, do Monteiro Lobato. Sua obra percorreu o tempo e registrou também, historicamente ilustradores como Voltolino, André Le Blanc, Belmonte, J. U. Campos e Manuel Victor Filho, entre outros que junto à forte literatura de Lobato, começaram a sedimentar a ilustração no Brasil.
Da década de 70 pra cá, surgiram vários escritores e ilustradores que são referência ainda hoje, e fizeram – e fazem – parte do livro brasileiro contemporâneo. Muito estão na ativa, produzindo e criando novos conceitos para leitura do olhar.
É preciso saber que ilustração caminha semelhante as artes plásticas. Modificou-se ao passar dos anos e por isso teve igualmente uma influencia que nos faz lembrar o manifesto antropofágico. Movimento artístico de 1920, teorizado por Oswald de Andrade, com objetivo ideológico de reelaborar a cultura externa para sedimentar uma representação da cultura interna. Um marco no modernismo brasileiro que deu certo.
A partir da década de 90, conseguimos identificar em alguns ilustradores uma “virada visual” partindo para representações culturais. Roger Mello, Graça Lima, Marilda Castanha, Ricardo Azevedo, Ciça Fittipaldi são certamente nomes que representam o período de ligação da ilustração a uma arte brasileira. Assim como no movimento antropofágico, os ilustradores mantiveram o olhar atento as produções estrangeiras, muito forte no brasil ainda hoje por traduções, e reconstruíram uma forma visual genuína a representações nacionais.
Tenho total crença que imagens com referências culturais despertam no leitor a motivação e o interesse sobre as suas próprias raízes. Ao produzir sentidos visuais sobre os quais podemos nos identificar, construímos identidade. Mas identificar uma cultura visual genuína é difícil porque somos um povo miscigenado.
Os novos artistas que narram visualmente também possuem representações múltiplas porque continuamos com pouca formação na ilustração e edição de livros. As traduções estrangeiras, bem editadas, estão cada vez mais presentes, cativam o olhar pela qualidade estética e maturidade na forma de contar. Os conceitos visuais não são estabelecidos antes das experimentações. A internet é um infinito arquivo visual e serve como escola para o surgimento de muitos ilustradores ainda sem argumentos autorais e são absorvidos pela necessidade de produção.
Podemos considerar que a identidade cultural é afetada e deslocada pelos processos de globalização. Sem identidade visual pre-estabelecida por um processo de estudos. O ilustrador aspirante entra em conflito, desintegra-se em suas referencias unificando conceitos para livros. Só com o tempo e maturidade alguns desenvolvem uma genuína representação artística.
Contudo, acredito ainda que o objetivo principal da ilustração narrativa é contar. Com sutilezas que perpassam entremeios camuflados que um detalhe pode revelar, no pensamento criativo, no desenrolar das perguntas que um risco ou uma cor podem instigar. Nos espaços vazios e cheios. Onde o tocar no próprio objeto e até o passar de páginas bem diagramadas pode sensibilizar, tocar o imaginário e conquistar um novo leitor.
No Brasil, nomes já citados acima como Roger, Graça, Marilda, Ciça e Ricardo, além de Fernando Vilela, Marcelo Pimentel, Rosinha, Maurício negro, são referencias fortes no sentido cultural étnico ou representações visuais e artísticas do norte e nordeste. Imprimem características de cultura especifica ou regional em suas obras, independente da história que contam.
Mas o time de ilustradores brasileiros é grande. Na verdade imenso, com tantos livros e profissionais de várias gerações que de forma sutil ou às vezes bem marcadas compõem um olhar de Brasil. Como não perceber nas aquarelas do Odilon Moraes, Lelis, Helena Alexandrino, Elma, Eva Furnari, Elizabeth Teixeira, Cris Eich as representações sutis da vida cotidiana brasileira? E toda pesquisa visual e fundamento histórico em algumas obras de Nelson Cruz? Então, as formas de agir, vestir, morar também não são registros da nossa cultura visual? Assim, nos detalhes podemos perceber muito mais, nas formas, cores, lugares, fauna, flora e em tantos outros detalhes aqui e ali que trazem um Brasil simples e reconhecível em qualquer estilo. Até mesmo na descontração de traços nos livros da Mariana Massarani, Ivan Zigg, Alê Abreu, Aline Abreu e Renato Moriconi.
Ainda temos exemplos de ilustradores que dentro da sua forte identidade cultural imigrante imprimem uma brasilidade de forma muito peculiar através das suas imagens como Lúcia Hiratsuka, Janaina Tokitaka, Andres Sandoval, Laurent Cardon, Jean Claude Alphen, Anabella Lopez. Ou parte, da qual me incluo, que optam por representatividade cultural mais fortes em relação à história a ser contada. Usando pesquisa e intenções para dar uma visão mais acentuada de um Brasil dentro de tantos Brasis. Sendo assim, o livro ilustrado no Brasil amplia o caráter geográfico que os elementos culturais assumem, em qualquer tempo, define a diversidade pertencentes às formações adquiridas por cada ilustrador e as regiões em que eles vivem e suas vivências visuais e simbólicas. Recorrendo à própria história de cada um e suas experiências de natureza semiótica. Tais experiências ilustram um olhar idealizado que cada artista deseja mostrar ao outro. Ao leitor.


Deixe um comentário