Benita Prieto, que em novembro comanda mais um simpósio internacional de contadores de histórias: “Acho que hoje sou melhor contadora de histórias e promotora de leitura do que há 20 anos”
Por Claudia Lins
Escritora, produtora cultural de eventos literários, mas ates e tudo, uma contadora de histórias. Benita Prieto, integrante, há 20 anos, do grupo Morandubetá, pode ser considerada uma das precurssoras do movimento brasileiro de promoção à leitura a partir de encontros e simpósios de contadores. Nessa entrevista, concedida, há menos de um mês da realização da 10ª edição do evento internacional, que acontecerá em Copacabana, no Rio de Janeiro, a autora nos fala das emoções vivenciadas ao longo de sua trajetória, de suas andanças e descobertas por outras culturas e do importante papel dos contadores no universo literário sem fronteiras.
Mundo Leitura: Quase todo mundo um dia teve um contador na família, ou educador na escola, aquela pessoa que nos despertou para o prazer da leitura a partir da narração oral. O que é preciso para se tornar um bom contador de histórias?
Benita Prieto: Depende do objetivo do contador. Todos podem contar histórias para seus filhos, alunos, amigos. Isso implica apenas no desejo. Mas se o contador quer ser um profissional precisa se preocupar com a performance. Nesse caso, tem que trabalhar o corpo e a voz, ensaiar muito o texto. E o fundamental para todas as situações é gostar de verdade da história que escolheu contar.
Mundo Leitura: Em novembro você coordena o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, evento que chega a sua 10ª edição celebrando a leitura oral e a arte de contação. Como essa história
começou?
Benita Prieto: Em 1996 fui à Bueno Aires e vi um encontro de contadores de histórias pela primeira vez. Achei tão bonito que decidi naquele momento que o Brasil também sediaria eventos dessa natureza. Quando voltei para o Rio de Janeiro, comecei a buscar apoio para essa iniciativa. Finalmente em 1999 a ONG Leia Brasil conseguiu patrocínio da PETROBRAS e apoio do Sesc Rio e Sesc São Paulo, para fazermos o primeiro Encontro Internacional de Contadores de Histórias. Por vários motivos só conseguimos fazer a segunda edição em 2002 e resolvemos passar à chamá-lo de Simpósio.De lá pra cá não paramos mais. E chegamos este ano a décima edição.
Mundo Leitura: Atualmente você preside a ONG Conta Brasil e congrega uma rede de contadores e autores de vários estados, antes disso criou uma produtora para dar visibilidade a projetos de narração oral, leitura e literatura. Comparando com outros países, que tal o mercado de promoção literária brasileiro? No que precisamos avançar?
Benita Prieto: Estou há mais de 20 anos na área de promoção de leitura e com certeza houve uma evolução, qualitativa e quantitativa, dos projetos. Hoje estamos melhores do que muitos países. Mas esse investimento tem que ser ampliado e chegar principalmente ao Norte e Nordeste do Brasil. Precisamos de mais recursos financeiros e de pessoal com formação para executar ações de continuidade.
Mundo Leitura: Ao viajar o Brasil e o mundo contando histórias, você tem a oportunidade de estar em contato com outras culturas, uma troca que certamente resulta em incríveis descobertas. O que considera mais gratificante nesses encontros? E qual o impacto dessas vivências no seu trabalho com a leitura?
Benita Prieto: Sempre é emocionante e impactante entrar em contato com outra cultura. Acabamos descobrindo novas histórias, novas formas de contar. Esse intercâmbio ajuda na criação de redes onde a palavra é a fonte de inspiração. Particularmente tenho aprendido muito com essas experiências. Acho que hoje sou melhor contadora de histórias e promotora de leitura do que há 20 anos.
Mundo Leitura: Hoje com as redes sociais ficou mais fácil perceber a dimensão de iniciativas, projetos e pessoas que de modo individual ou coletivo se dedicam a produzir literatura, contar histórias e incentivar a leitura no país. Mas como ampliar a visibilidade desse universo tornando o livro e a leitura presenças constantes na pauta das diversas mídias?
Benita Prieto: Esse é o grande desafio. Como o mundo tecnológico se amplia numa velocidade que não conseguimos acompanhar, o melhor será optar pela mídia que temos maior afinidade. Sempre haverá alguém que suprirá a carência daquela mídia que não dominamos.
Mundo Leitura: Ao lado de Celso Sisto e de outros contadores você integrou o Grupo Morandubetá ajudando a formar novos narradores pelo Brasil. O que é o Morandubetá e qual a importância dessa experiência para o trabalho de formação que você desenvolve hoje?
Benita Prieto: O grupo Morandubetá existe há 20 anos com a mesma formação: Celso Sisto, Eliana Yunes, Lucia Fidalgo e Benita Prieto. Quando começamos não existiam grupos de contadores de histórias que trabalhassem como promotores de leitura. Também não havia muita bibliografia sobre o tema. Portanto, tivemos que contar, escrever, teorizar, formar. Essa profunda imersão me deu segurança para continuar em conjunto com o grupo ou isoladamente.
Mundo Leitura: Os encontros de contadores continuam no próximo ano? Quais os próximos projetos em que está envolvida?
Benita Prieto: Claro, sempre acontecerão os encontros de histórias. Quanto aos próximos projetos, o segredo é a alma do negócio.
Mundo Leitura: Antes de encerrar, que tal falar um pouco sobre a Benita escritora, o que anda produzindo ou pensando escrever?
Benita Prieto: Tenho alguns livros de literatura infantil-juvenil publicados, todos com contos de medo, que eu adoro. Também escrevi um livro sobre a arte de contar histórias para o mercado espanhol. Nesse momento, estou terminando a organização de dois livros: Contadores de histórias: um exercício para muitas vozes e Mínimos Contos. Muitas histórias estão circulando pela minha cabeça e pelo meu computador, o que é falta é tempo para finalizá-las.



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