A poesia habita a infância. A infância habita a poesia. Dividem a mesma concha, com uma pérola para encantar públicos diferentes. A criança pode apreciar versos criados para adultos, se há um trabalho lúdico, non sense e prevalência de imagens.
Os versos se originaram na tradição oral dos povos (folclore), e a criança precisa da musicalidade que eles carregam. Na infância, é importante o contato com as sonoridades e os ritmos presentes nas criações poéticas. As cantigas de ninar, parlendas, adivinhas, cantigas de roda são manifestações poéticas. Ler em voz alta é um gesto de carinho pela criança. Você a embala e brinca, tão importante na nossa vida.
Ao criar versos, o escritor não pensa racionalmente, ele brinca com as palavras como nos disse José Paulo Paes (1926-1988), em Poemas para brincar:
Convite
Poesia
é brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.
Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.
As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
Para escrever literatura, é necessário convocar a nossa criança. Simbolicamente, é ela que solta a voz do escritor, que o conecta com a fantasia, o imaginário, o sonho. A escrita literária se difere de outras porque nela há características de polissemia, verossimilhança, intertextualidade. Ela é lapidada, não uma escritura bruta. Importam a musicalidade, o ritmo, as figuras de linguagem (em especial, as metáforas e as metonímias). O texto não é linear, ele captura o leitor pela forma e não pelos conteúdos e assuntos.
Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, comparou o poeta à criança. Em um importante trabalho de 1907/8, “Escritores criativos e devaneios”:
“O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. (…) A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, conseqüências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.”
A origem da poesia coincide com a origem da literatura e se aproxima ao nascimento da linguagem. Para que serve a poesia? Na vida de competições, de tecnologias, de agilidade nas comunicações, o que faz com que esta antiga arte sobreviva? A poesia carece que a gente pare, leia. Sinta e deixe se levar por sensações.
Por que a poesia, ainda? Ela é alimento. Alento. A poesia nos acolhe, num mundo que valoriza a produção, os números, as aparências. E nos faz olhar para dentro, nos faz calar. Traz um silêncio que nos provoca a associação de imagens e de idéias. Poética é a arte que estuda a poesia e suas obras, considerando o que elas têm de específico, aquilo que lhes é próprio: o poético. Este, por sua vez, é constituído dos elementos fundamentais do poema. O poético é matéria da poesia, é tudo de que ela pode falar e o modo como ela fala num poema. O objeto inventado pela poesia é o poema, de modo que este vem a ser um artefato, o produto acabado resultante do fazer artístico. Poema é a obra de arte verbal realizada concretamente.
Erza Pound (1882-1972), poeta norte-americano, nos ensinou que há três elementos fundamentais que podem caracterizar a arte dos versos: a melopéia (o som), a fanopeia (as imagens) e a logopeia (as idéias). Quando a criança escuta um poema, ela se conecta com a sonoridade (os sons) e as idéias (fantasias), principalmente.
No Brasil, temos um time valioso de poetas que escreveram para as crianças: Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, José Paulo Paes, Elias José, Sérgio Caparelli, Roseana Murray, Leo Cunha e tantos outros. E ainda poetas consagrados que nos deixaram um reconhecido acervo também para a infância: Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Manoel de Barros. Suas obras são alimentos para todos nós que criamos.
Quando escrevo em versos, não penso em um leitor, nem em uma coisa. Deixo sair livremente as palavras que chegam, a partir de uma foto, de uma cena, de um ruído que fotografei com os sentidos. Depois, releio, passo a limpo, corto ou substituo palavras. Passado um tempo, leio novamente em voz alta e faço mais ajustes, até sentir vontade de ler para alguém. O poema custa a nascer, vivo o processo da escrita como algo realizador na minha vida. Compartilho uns versos sendo lapidados:
o homem cerca
o tempo disserta
a natureza deserta


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