Onde vivem as histórias

foto rosanaPor Rosana Mont´Alverne

Este texto é um caso típico da escrita que nasce posteriormente ao título. Quando Cláudia Lins me pediu que lhe enviasse o tema do meu capítulo para o livro do projeto “A vez a e Voz da Literatura Infantil – o que pensam e escrevem seus autores”, respondi de bate-pronto que seria “Onde vivem as histórias”. A resposta intuitiva – me dei conta bem depois – aludia, claro, a um clássico da literatura infantil: Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak. Sou mais uma entre os incontáveis fãs da obra e possuo a belíssima edição da Cosac Naify, que considero um presente aos leitores brasileiros. “O trabalho de Sendak, disfarçado de fantasia, emerge do ‘eu’ primitivo, da criança que espreita no coração de todos nós”, disse a crítica do New York Times sobre o livro.

A luta do controle versus imaginação está presente também em Haroum e o mar de histórias, de Salman Rushdie, Ed. Companhia das Letras. Sheherazade nos ensinou a enfrentar a ira e a morte contando histórias. Também Malba Tahan escreveu sobre a verdade travestida de fábula para chegar ao sultão no conto Uma fábula sobre a fábula. Ela bem que tentou chegar até ele sob o manto transparente de seu verdadeiro nome, mas não conseguiu. Tentou uma vez mais disfarçada com grossas peles e dizendo ser a acusação, em vão. Foi sob a aparência de fábula que a verdade conseguiu penetrar no palácio e apresentar-se ao soberano.

No livro Trouver sa vérité par les contes de sagesse, de Édouard Brasey, Ed. Albin Michel, Paris, 2000, ainda sem tradução para o português, o autor nos ensina que os contos são os melhores guias na busca da verdade:

“Na realidade, a ‘mentira’ dos contos é um artifício destinado a quebrar os automatismos de nossa mente e a destruir as barreiras de prejulgamentos que nos separam da verdade. Pegando de contrapé a lógica e o bom senso, os contos nos obrigam a tomar consciência de que somos os bobos na teia de uma lógica enganosa e de um pretenso bom senso. Julgamos as coisas e as pessoas por sua aparência e recusamos a concepção de que essa aparência é, na maioria das vezes, ilusória. Se a verdade – ou o que acreditamos ser a verdade – mente, então pode ser que a mentira – a mentira dos contos, ou seja, a fabulação – tenha a chance de dizer a verdade.” (tradução minha).

Dos três livros infantis que escrevi até hoje, dois surgiram da luta contra os monstros da loucura e da morte.

O primeiro – Meu pai é uma figura – é narrado por uma criança cujo pai figura do título é muito diferente dos outros por suas manias, hábitos e profissões. Sempre que a criança fala do pai, as pessoas comentam: seu pai é uma figura!. Pode ser um comentário de deboche ou de genuína admiração. No mundo dos adultos a dissimulação faz parte do teatro da vida e a crítica verbal pode tornar-se violência psicológica num piscar de olhos. Como saber ao certo o que pensam de seu pai? Ao final, a criança se dá conta de que seu pai possui múltiplas habilidades, é presente, é carinhoso, lhe conta histórias e conclui: “como não amar essa figura?”. O livro foi escrito após um episódio de dor na vida de meu próprio filho. Ele precisou de toda a sua valentia e cuidados médicos para superá-lo. O livro fez parte desse percurso. Eu (mãe e avó) acompanhava meu filho mais velho na sua jornada de enfrentamento de uma doença que ainda não sabíamos que seria passageira. Puxa, é difícil escrever sobre isso. Foi mais fácil escrever o livro. Como Sendak e tantos outros, o “monstro” que tanto me angustiava transmutou-se em literatura. A verdade apareceu sob as vestes da fantasia.

Meu terceiro livro – Todas as cores de Malu –, ainda no prelo, com previsão de lançamento no primeiro semestre de 2016, foi escrito há três anos. A personagem, Malu, negra adotada por pais brancos, é uma menina que vê cores em tudo, até nos sentimentos e nas coisas invisíveis como os cheiros ou o vento. Malu adoece e vê os adultos sorrindo amarelo para ela. No hospital, tem a cabeça raspada e é visitada pelos colegas da escola, que pintam sua careca com divertidos desenhos. Malu está enfrentando a morte e o desfecho não foi algo fácil de elaborar e escrever. A Malu existiu de verdade, foi uma amiga querida que perdi para o câncer. Um dia me ligam para “encomendar” uma história para uma coleção de psicologia infantil. O tema? Doença e morte. Não tive dúvida, escrevi a história de Malu. Aliás, quem apareceu foi a Malu menina da minha imaginação, mas com as cores e as dores da realidade contra as quais lutávamos naquele exato momento de nossas vidas. Mais um “monstro” enfrentado que ganhava as páginas da literatura. Mais um que virou história.

Meu segundo livro foi inventado numa das minhas incontáveis brincadeiras com minha neta Manuela, que amava brincar de roda cantando a galinha do vizinho bota ovo amarelinho, bota um, bota dois, bota três…. Manuela, aos três anos de idade, cismou que seu nome completo era Manuela de Oliveira Mont’Alverne Bota Ovo Amarelinho Flores. Morríamos de rir e pedíamos que repetisse isso o tempo todo. Um dia, Manuela deu a ordem: “vó, conta a história do ovo amarelinho”. Vixe! “Bem… deixe-me ver… ah, já sei, era uma vez…”, e assim nasceu o livro “O ovo amarelinho da galinha do vizinho”, puro exercício de infância. No livro, o avarento e ganancioso Sebastião sai pelo mundo à procura do ovo amarelinho que o deixaria rico. Encontrou ovos de todas as cores, mas não quis nenhum. Voltou desanimado pra casa, quando sua esposa o surpreendeu: “Sebastião, o tesouro que você procura está pertinho: a galinha do vizinho bota ovo amarelinho!”. Sebastião ofereceu pela galinha um dinheirão, mas o vizinho, um homem pobre, recusou e respondeu: “essa galinha é de estimação; esses ovos eu não vendo e não troco, meu senhor, eu dou”. Sebastião aprendeu uma importante lição. E eu também. O tesouro quase sempre está bem ao nosso lado.

Considero-me uma editora de literatura infantil e uma contadora de histórias que acidentalmente escreve livros. Minha diminuta obra tem muito de oralidade. Aliás, houve um tempo em que toda a literatura do mundo era estritamente oral; depois foi cravada na pedra, depois no papel, depois nos computadores, hoje mora na “nuvem”. Isso pouco importa; como é registrada a literatura é uma questão que pouco acrescenta ao debate literário. Mas a pergunta permanece: onde vivem as histórias? O escritor português Eduardo Prado Coelho disse que “a linguagem é, por si, uma relação com o mundo, com o inconsciente e a história”. Na minha experiência, seja exercício de infância, seja a luta contra os monstros que habitam as profundezas das nossas mentes, a literatura infantil encontra boa interpretação nos versos do poeta mineiro Fernando Brant:

 

Há um menino, há um moleque

Morando sempre no meu coração

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão.

 

Há um passado no meu presente

O sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra

O menino me dá a mão.