O tempo da criação na escrita literária para infância

claudia reortadaPor Claudia Lins

Um dos maiores prazeres da minha vida assim como escrever, é compartilhar leituras. Aproximar pessoas e livros, reverenciar por meio das palavras a beleza ou incompletude que vejo no mundo. Gosto de testemunhar as reações das crianças diante de um livro que as sequestra e fascina. Aprendo muito ouvindo suas críticas, perspectivas, os horizontes que abarcam com sua imaginação. Crianças se permitem experimentar a leitura emocionalmente, não temem aventurar-se ou descobrir o invisível que caminha com os sentimentos.

Monteiro Lobato disse certa vez, que ainda escreveria livros onde as crianças pudessem morar. Penso nisso sempre que me perguntam como surgem os meus argumentos literários para infância ou o que me inspira na hora de criar uma narrativa?

Quando era criança, desejei habitar livros e viver as vidas dos personagens de muitas histórias. Recordo a emoção da primeira vez que li Reinações de Narizinho e sonhei me tornar a melhor amiga de Lúcia, a menina do nariz arrebitado. Do quanto me senti poderosa escrevendo bilhetinhos secretos como fazia a Raquel de A Bolsa Amarela, no livro de Lygia Bojunga, que li aos 10 anos e tantas outras vezes depois de adulta.

Não cresci numa casa de livros, nem de leitores. Fui menina de vida cigana, meus pais operários, viviam se mudando de um canto a outro. Os livros que lia, descobria na escola ou nos recontos feitos por minha tia e estrela Dalva, genuína contadora de histórias. Na adolescência, descobri o teatro e a experiência de criar personagens mambembes. Cresci, mergulhei no jornalismo, ampliei leituras e o meu olhar inquieto sobre o mundo. Mas a escrita literária só ocupou por completo a cena da minha vida quando me vi diante da infância de meus filhos. Com tempo para fincar raízes e inventar minhas próprias histórias de infâncias.

Experimentei diversos papéis na produção literária. Ousei, como as destemidas crianças, andar por trilhas independentes. Escrevi, editei, distribuí, vendi, divulguei, virei dona de minha própria obra. Nessa jornada como autora e mediadora de leituras, percebi que um caminho possível para estabelecer conexões entre livros e pessoas, é aquele capaz de despertar para o prazer, a afetividade, o estranhamento ou a curiosidade diante do texto escrito.

Como as histórias que ouvi e li impactam minha criação e me inspiram a mediar leituras?

Não costumo confabular sobre isso enquanto escrevo, nem tento definir um estilo a  seguir em minha produção autoral. Liberto a imaginação e sigo a criança que habita meu ser. Posso imaginar um porquinho leitor morando casa de livros no agreste nordestino, a filha de um pescador que se apaixona por um dourado gigante e com ele se muda para um castelo nas profundezas do rio São Francisco, ou colorir de sonhos a vida real de uma menina catadora de sururus que vive às margens da poluída lagoa cartão postal de minha cidade.

Escrevo porque me emociono com a vida e desejo dialogar com a realidade fantasiando. Escrevo o que me dá prazer, provoca, inquieta e me faz sonhar. Escrevo para crianças porque gosto de estar com elas, ouvir suas risadas, olhar em seus olhos, sentir sua energia vibrante.

Vejo o tempo da criação na escrita literária como um exercício de sábia espera. O argumento para uma história pode nascer e morar no pensamento, vir de algo que o autor viu e o deixou perplexo, de uma sensação que o angustia ou dá prazer. Às vezes, surge como imagem, sentimento, ideia quase pronta. Noutras, é apenas um título, possibilidade que alimento por longa e incerta gestação.

Agora, por exemplo, vivo vidas numa trama tecida a delicados pontos, sem conseguir dormir ouvindo as vozes dos personagens que tem urgência em escapar do meu pensamento. Enquanto isso, a editora prepara o original que escrevi há três anos, mas ainda terei que esperar alguns meses até que se torne realidade para os meus leitores. E quando nos encontrarmos, o livro pronto e eu, já não serei a mesma autora que o escreveu.

Acredito no verdadeiro encontro entre o leitor e a narrativa que o toca. Mas não posso deixar de me questionar, nesses tempos midiáticos em que vivemos: que criança é essa para quem escrevo hoje? Que leitor se tornará amanhã?

Li outro dia, uma frase atribuída a Mia Couto, que dizia assim: “É preciso entender que as crianças estão deixando de ler livros porque estão deixando de ler o mundo, os outros, a vida”.

Habitantes de um universo midiático, muitas crianças crescerão sem experimentar as memórias afetivas do contato com um livro de papel. Poderão desconhecer as emoções provocadas pelo cheiro da tinta, a alegria e o assombro de virar uma página ou retornar ao mesmo ponto lido, na esperança de reter o tempo e as sensações impressas numa folha de couche ou offset. Talvez descubram ou reinventem seu próprio jeito de criar laços afetivos com a leitura e a escrita. Mas muito possivelmente, nesse tempo futuro, prevalecerão a poética ou a força das palavras. A energia dos sentimentos despertados por uma boa história, independente do suporte em que esta se apresente.

Gerações digitais, vivendo numa era imagética, com pensamentos processados em multilinguagens, crianças e adolescentes estão criando novos significados para se relacionar com o conhecimento, a cultura, a leitura e a escrita. E isso nos desafia a refletir sobre nosso papel não apenas enquanto produtores autorais, mas essencialmente como mediadores literários na escola, em casa e na vida.

Como apresentamos a leitura para essas crianças? Consideramos seus direitos a diversidade de escolhas, respeitamos a variedade de possibilidades que o universo de gêneros e estilos literários as propiciam? Ou nos contentamos em repetir as trilhas que guiaram nossa trajetória leitora, elegendo preferências a partir do que classificamos como importante e necessário? Escrevemos livros onde esses leitores desejam morar? Narrativas que os atraíam, despertem sua curiosidade ou o provoquem para o desejo de voltar outras vezes? Quem sabe, por muito tempo…

Não há fórmulas para criar um bom livro, tampouco para formar um leitor. De minha parte, persisto no caminho dessa literatura que abraça o sonho e a fantasia com o mesmo entusiasmo que se aproxima do mundo real. Uma literatura pronta para dialogar com os pensamentos e os sentimentos dos leitores desse tempo presente e tão transitório, quanto nossa infância e adolescência foram um dia.