Quando encontro a minha história, apenas a reconheço, pois ela me pertence.
Penso que o processo criador consiste em trazer à luz, elementos necessários e insubstituíveis, palavras e imagens que são inseparáveis do nosso ser. Qualquer criação, em todos os canais de linguagem que possamos nos expressar é algo que está na origem dos nossos tempos e revela uma totalidade viva, intocável na sua autenticidade.
Portanto, no fundo, na origem da minha história infantil encontra-se a minha atitude fundamental diante da vida.
Uma história, como um poema, é algo que se fecha sobre si mesmo. Mas, para traduzir todo o meu sentimento em palavras, preciso abrir-me para os seus múltiplos significados, para que sem deixar de ser ele mesmo, o meu sentimento expresso sempre possa se transformar; e o leitor possa compreender a minha história com o seu próprio sentimento.
Preciso, cada vez mais compreendo isso, abrir-me, libertar personagens que entrecruzam-se com os mitos, lá onde estão os nossos arquétipos – símbolos que representam a nossa jornada arquetípica- assim como o louco, ou o rei e a rainha, ou a morte, ou o diabo – são imagens possuídas de poderes que favorecem um rompimento dos esquemas intelectuais, falando-nos com uma linguagem-viva e universal, exigem de nós uma participação ativa, impele-nos a nascer de novo. O caminho arquetípico é a busca da nossa compreensão do mundo, a evolução pela qual todos os seres devem passar – o destino do herói.
O mundo dos heróis não é diferente do mundo dos homens, ele, apenas o simboliza, torna viva a experiência do processo formador da consciência – um caminho construído com a justiça (o equilíbrio das forças contrárias), a ordem (que é a própria expressão da consciência – o livre arbítrio*) e o destino inevitável (representado pelas forças invencíveis do tempo).
Aventurar-se pelos caminhos do herói, penetrar em castelos guardados por monstros, descer aos infernos, triunfar sobre o caos; tudo isso são momentos de uma jornada iniciática – o processo inevitável do destino, no qual o herói representa a alma perdida na terra a lutar contra os poderes inferiores de sua própria natureza e do mundo que o rodeia.
A minha história infantil nunca se importa em contar as coisas como realmente acontecera, mas como desejaria que tivesse acontecido. E, assim como as histórias de fadas, quero reassegurar às crianças de que elas podem, eventualmente, levar a melhor sobre o gigante, isto é, elas podem crescer como um gigante e adquirir os mesmos poderes, alimentar-lhes fantasias – “as poderosas esperanças que nos tornam adultos”.
A minha história para a criança é a ponte que liga o o meu desejo- pedra-bruta a realidade, é a minha realização formal e expressiva; pedra-amor que se revela em palavras, escavando, escavando, escavando…
É esse o meu trabalho com o livro infantil: o sagrado ofício de esculpir palavras.
*O caminho do livre-arbítrio- Jung considera que entre o herói e o antagonista exista certa conexão, o bem e o mal, sem cuja conjunção, no mundo das formas, não é possível ascender; “a princesa quer e não quer ser libertada; o espírito tenebroso tem saudade da luz. A obtenção da alma significa uma obra de paciência, de entrega.” (Noemí Paz, Mitos e ritos de iniciação nos contos de fadas).


Deixe um comentário