O quintal de Asahi acolhia os meus rabiscos entre capins e pegadas de galinhas. Era bem amplo o espaço onde eu criava, inventava brincadeiras, ouvia histórias. E lia muito. Lia o amanhecer que chegava com os ruídos da roça acordando, lia a poeira que se levantava na estrada, lia o entardecer que chegava com o movimento de recolher dos bichos e aves. As galinhas subiam nas mangueiras, cada uma encontrando seus galhos para se aconchegarem. Era um espaço que podia ser explorado de perto, com os olhos, ouvidos, a ponta dos dedos, a sola do pé…
Também lia o mundo das cantigas aprendidas com a minha avó. Uma das cantigas dizia que os passarinhos voltavam para suas casas e o sino soava no templo da montanha. Não conhecia nenhum templo na montanha, mas imaginava. Havia também a cantiga de chamar vaga-lumes, cantigas da lua, das estações de ano, das estrelas. Acho que essas cantigas me faziam ler melhor o mundo a minha volta.
Um outro espaço foi importante no meu caminho. Meu pai, uma vez por mês, voltava da cidade com um pacote. Pelo formato eu adivinhava o que havia dentro. Almanaques e livros que chegavam do outro lado do mundo. Quantas histórias guardadas ali! Descobri também os livros ilustrados. Dentro desse espaço um universo se expandia pelas imagens e palavras, pela junção das linguagens formava-se uma narrativa, um jogo lúdico, uma ideia poética…
O sonho nutrido pelos livros, rabiscado no meu quintal, me levou ao Japão.
“A beleza de um livro ilustrado está no MIHIRAKI”, me disse um professor japonês. Essa palavra se escreve com a junção de dois ideogramas: miru– olhar e hiraki– abrir. Abrir e olhar. O que é que se apresenta ao olhar quando um livro é aberto e folheado? O leitor captura aquele espaço. As palavras, as imagens, a dobra da encadernação, o movimento ao folhear, o posicionamento das personagens… E também o vazio. Importantíssimo. O silêncio, a pausa, o respiro.
Penso sempre como devo compor um espaço.
Um livro ilustrado é para ser folheado várias vezes. Montar um livro é um jogo fascinante, justamente pela possibilidade de introduzir tantas linguagens: a do cinema, do teatro, do quadrinho, e tantas outras. Como todos esses códigos estéticos se organizam? Ora o texto silencia, ora a imagem silencia. A montagem estabelece o ritmo, a fluidez, o desenrolar da narrativa. A repetição pode ser utilizada para marcar o ritmo, e a quebra dessa repetição pode gerar um outro interesse, colocar algum elemento em evidência.
Porém, a técnica é apenas um meio para expressar a essência do que se pretende dizer. Vou buscar a essência na poesia do cotidiano, nos sentimentos das pessoas, no espaço que eu guardo na memória… O azul e a cor da terra.
A cor da terra me remete ao chão do quintal, próximo, que podia ser tocado; o azul representa o distante, trazido para perto através da imaginação.
Hoje, não tenho um quintal amplo para rabiscar. Aprendi a criar num espaço reduzido, mas que se amplia pelo poder das palavras, das imagens, da interação dos códigos diversos, e principalmente pelo poder do leitor de imaginar e recriar. Abrir e olhar, folhear e olhar. O azul, a cor da terra e tantas outras cores que se apresentam ao nosso olhar. Ao nosso espaço do sentir.


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