Enredando a literatura oral: una, duna, tena, catena

IMG_0350Por Lenice Gomes

Já há algum tempo, a literatura oral tem deixado de ser uma forma “invisível” dentro da tradição literária e tem recebido alguns estudos. Na realidade, muito tem se falado sobre a oralidade, principalmente, na sua relação com a contação de histórias.

O que posso apontar, dentro de minhas experiências, é particular e não tem relação com estudos prévios, mas com a vivência continuada com o público. Desde o começo de minha trajetória, minha relação com a oralidade foi à relação de mediação entre a literatura e o ouvinte. Levar aos alunos, em fase de aprendizagem ou sem interesse pelos livros, a palavra, a história e a magia.

Era preciso, e ainda é, despertar o interesse pela literatura. Por isso, precisamos enredar os ouvintes, fazê-los ver o texto através de nossas palavras. O contador tem que ser fundamentalmente um leitor e ter um ouvido atento. Pois se engana quem não percebe que existem histórias no dia a dia e que a linguagem muitas vezes nos revela surpresas. A fala dos anciões e das crianças é uma das fontes preciosas para o contador.

Uma das temáticas que tenho insistido, nestas minhas décadas, como contadora de histórias, é a memória afetiva. Sempre volto a este tema, como quem volta a uma velha casa de bruxas, para pegar novas receitas. Memória e afetividade devem estar conectadas com o momento da contação de histórias. A tradição oral é isso. Um povo que mantém as sua histórias, uma avó que mantém as suas lembranças e as passa para os netos, bisnetos, tataranetos.

A memória afetiva deve impregnar o contador para que ele “enrede” o ouvinte. Lembrando que a contação de histórias não é meramente a leitura de um livro para uma plateia, mas um olhar nos olhos, um momento de magnetismo que se estabelece. É neste momento, que despertamos a memória do outro, sua infância, sua relação com o  universo da fantasia e das brincadeiras.

Junto com a tradição oral temos as brincadeiras infantis como parte da construção de uma memória afetiva. Afinal, por mais variadas que sejam estas brincadeiras, ou seja, no pula cordas até nos jogos atuais, as crianças partilham desta ludicidade tão importante para sua formação. Brincadeiras, jogos, adivinhas, de uma forma ou de outra, ainda farão parte de um repertório da infância.

Para isso, o contador deve estar atento, para saber como abrir este baú de brincadeiras através das palavras, dos jogos com a linguagem, com o uso dos gestos e a entoação da voz. Lembrando que cada criança traz sua visão de mundo e que cada adulto também traz a criança que foi dentro de si. O contador sabe enredar o adulto e a criança, pois não se trata aqui apenas de um momento destituído de afeto e de recordações, ou teríamos apenas uma história que depois poderia ser esquecida.

Una – o contador e o ouvinte;

Duna- a história

Tuna- memória afetiva

Datena- a tradição que perdura

São estes elementos que nos mantém como contadores ou tradutores da literatura e da oralidade. Cada contador tem um campo para semear. No meu percurso como contadora de histórias e formadora de contadores, sempre estive semeando o alecrim dourado. É preciso contar e encantar. Despertar o prazer da palavra através da voz e do texto.