A necessidade da autoria nas escolhas literárias

foto simonePor Simone Cavalcante

Quando vou pegar um livro na estante, o que move minha escolha? A capa, o título, o gênero, o design, o autor? Para onde é direcionado meu campo de visão e quantas teclas de minha memória cultural são ativadas nesse ato aparentemente simples? Se o assunto for literatura infantil, o que deve ser levado em conta? Se me pego perdido entre fábulas, contos de fadas, mitos, contos contemporâneos, por onde devo começar?

Muitos são os leitores, múltiplos os caminhos. As escolhas literárias se movem por vários impulsos – emocional, cultural, afetivo, econômico e tantos outros – isso já sabemos.

Seja qual for a trilha escolhida, não se entra e sai da densa floresta da literatura e dos livros para a infância, sem se defrontar com uma questão inevitável: quem criou a obra, quem idealizou sua linguagem verbal e visual? E o que isso tem a ver com o direcionamento de minhas preferências literárias?

A necessidade da autoria se confirma quando “ouvimos” o texto, imaginando a vibração, o tom e a dicção de uma ou mais vozes presentes na narrativa; quando reconhecemos, em determinados títulos, semelhanças estilísticas, gráficas e estéticas no modo de escrever, ilustrar ou diagramar; ou apenas por termos apreendido culturalmente a noção de que toda criação artística é fruto do trabalho intelectual humano.

No dicionário, a palavra autoria carrega duplamente o sentido de invenção e condição de autor. Ela representa, assim, o ponto inicial de força do sistema literário, em volta do qual circulam leitores, editores, gráficas, distribuidores e livreiros. Para existir como produto comercial, a obra se funda nos livres impulsos de inventividade de seus criadores e, por sua vez, movimenta toda essa cadeia produtiva. Assim, o autor longe de ser mera engrenagem, é força motriz.

A compreensão pelo tema da autoria se deve a minha intensa vivência como escritora, editora e designer gráfico. Comecei cedo. Ainda estudante, fui convidada a estagiar numa editora e gráfica universitária. Anos depois, publiquei meu primeiro livro de literatura infantil e me lancei à tarefa de gerenciar a própria editora.

Hoje, nessa área, apenas escrevo e é a partir desse lugar que falo. Vejo a autoria por três lentes: histórica, estética e simbólica.

A dimensão Histórica ? Se desejo ir a Vimmerby, na Suécia, para conhecer o museu sobre Astrid Lindgren, também posso ir ao Rio de Janeiro visitar a casa-museu da brasileira Lygia Bojunga, ou ir à cidade de Vicuña, no Chile, explorar o museu de Gabriela Mistral. O que essas mulheres escritoras têm em comum?

As três consolidaram sua obra em âmbito internacional. Astrid e Lygia receberam o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil, já Gabriela é Prêmio Nobel de Literatura. Também defenderam causas a favor das crianças, do respeito às mulheres e da emancipação social de populações carentes. Foi o reconhecimento do valor da autoria, da riqueza do texto e do engajamento pessoal – muito mais que a venda de seus livros – que fez cada uma delas se tornar uma referência na literatura e uma atração para o turismo de seu país.

Se nascidas séculos atrás, a coisa seria diferente. Isso porque os direitos do autor levaram tempos para ser conquistados, no Ocidente. O historiador Roger Carthier nos lembra que, na Idade Média, os livreiros-editores tinham o domínio perpétuo das obras, e o autor, um mero escriba, ficava no anonimato.  Depois, o autor passa a ser recompensado, oferecendo seu livro a soberanos em troca de uma pensão. Anos adiante, os editores-livreiros tomam a decisão de colocar o nome do autor na capa para proteger os textos da pirataria de seus concorrentes.  E só a partir do século XVIII o autor tem, enfim, seus direitos reconhecidos, sendo remunerado pela circulação de seu trabalho.

Essas mudanças garantiram, na atualidade, a autoras como Lygia, Astrid, Gabriela e milhares de outros a proteção legal de sua obra. O copyrigth, , o percentual sobre a venda de exemplares, o domínio público estão consolidados por lei em vários países. Até mesmo o Creative Commons, que propõe licenças para compartilhar livremente conteúdos, reconhece os direitos do autor.

A dimensão Estética – A autoria do livro infantil é complexa, pois abrange duas narrativas, a verbal e a da imagem visual. Abarca desde quem escreve, a quem ilustra até chegar naquele que realiza a disposição espacial do livro. Tudo está bem conectado. Um livro mal escrito pode atrair o leitor pelo projeto gráfico primoroso. Uma diagramação mal resolvida pode abortar uma série de ilustrações e prejudicar a acuidade do texto. Bem como um texto coeso e fascinante pode compensar desenhos pouco criativos.

Cabe a figura do editor, a medição entre os diferentes pontos de vista da autoria, abrindo canais de escuta em busca de um consenso. Nem sempre a editora tem tempo e disposição para tal tarefa. Mas resta a escritores, ilustradores e designers gráficos se reconhecerem como sujeitos ativos na produção da obra, afinal, mesmo com o refinamento técnico do editor e o aparato de marketing das empresas, um livro só se sustenta, e pode atravessar séculos, pelo seu caráter de inventividade, ousadia e originalidade e suas pontes de comunicação entre os leitores.

Um dos critérios de escolha literária pode vir da compreensão desse combinado de expertises, em reconhecer o percurso de criação artística desses profissionais, respeitando as especificidades de seu trabalho

A dimensão Simbólica – A autoria caminha além de um nome na vitrine do saldão das livrarias. Leio Bartolomeu Campos de Queiroz porque me fascina, em primeiro lugar, a tessitura estética de sua obra para crianças e adultos, seu estilo de escrever poético e comprometido com seu tempo. Como não reconhecer seu ativismo de educador preocupado com as causas da leitura no Brasil? Leio o autor e me alimento de seu estilo, de sua cultura e idiossincrasia.

Os livros resultam da combinação entre o imaginário do autor e as imaginações da cultura – a tradição e a modernidade, a conexão entre narrativas, a herança de saberes e fazeres dos povos. Não são meros produtos, como às vezes insiste o mercado, para enriquecer negócios editorias.

Daí a importância do mediador de leitura – bibliotecário, educador, contador de histórias – na afirmação da construção simbólica do sentido de autoria que deve permanecer; aquele que impregna o imaginário do leitor de saudades, porque a leitura precisa ser tomada de um sentido de afetividade pelos textos literários. Por que prefiro a narrativa de determinado autor ou a imagem daquele ilustrador?  Esse grau de predileção é extremamente necessário à atividade do leitor, sob o risco de paralisar seus sentidos à necessidade do belo, do oposto, da complexidade da vida humana.

A autoria não se restringe a um nome impresso na capa de um livro. Nem se limita a reservas de direitos ou prestação de serviços sobre uma obra.  A necessidade da autoria é a afirmação, no tempo histórico, da memória viva das culturas, de seu gosto e diversidade estética, das trocas simbólicas resultantes de seus objetos artísticos.

O entendimento dessas três dimensões – simbólica, estética e histórica – pode sensibilizar a consciência do leitor para definir critérios no justo equilíbrio entre o olhar apurado, o gosto e o senso crítico. Fazê-lo questionar se vale a pena mesmo investir seu tempo em livros sem autoria, produzidos para atender a interesses obscuros do mercado, negando ao público a possibilidade de um novo encontro com um estilo de escrita que o fisgou. Como achar mais livros de um autor desconhecido?

Para além do preço, de uma bela capa e sinopse atraente, elementos mais importantes podem estar em jogo no momento da escolha literária. Ao leitor é colocado também o desafio de inventar novas formas de recepção da obra de literatura infantil. E cabe a nós, autores e autoras, nos reconhecermos como sujeitos produtores de sentidos e responsáveis pelo compartilhamento da herança cultural humana.