Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)...
Celso Sisto*
Era obrigatório! Todo mundo tinha que ter um melhor amigo! E de preferência, enchia-se a boca para falar: “Ele é meu melhor amigo!”. Com isso já se sabia: freqüentar a casa um do outro; usar as coisas um do outro; dividir o lanche um com o outro; sentar ao lado um do outro; emprestar livros um para o outro; ajudar a fazer os trabalhos, um ao outro; fazer as famílias ficarem amigas uma da outra.
Era assim que ia nascendo e emaranhando-se o afeto espontâneo, fora de casa, não obrigatório, extra-laço-de-sangue. Um gostar que não vinha imposto pelos fluxos e refluxos da genética. Talvez um amor botânico.
Tal qual o primeiro feijão que a gente plantava no algodão, o amigo ia sendo regado e observado dia a dia. “Agora o feijão se abriu”, dizia o pequeno cientista, enquanto o pequeno ator social também dizia “hoje fiquei pra trás e ele me ajudou a copiar todo o dever de casa!”. Mais uns dias, e o pequeno botânico exclamava: “agora o caule está crescendo”, enquanto o mini sujeito (como um pequeno Darwin) constatava: “no meu time só tem o melhor, eu e meu amigo!”. E pra completar de vez a pesquisa, o aprendiz de Skinner percebia: eu molho o algodão e a folha levanta; enquanto o pré-cidadão (talvez um quase Freud) quisesse apenas dizer: “eu dou e recebo afeto do meu amigo!”.
Mas a prova cabal vinha mesmo no dia do aniversário: comprar para o melhor amigo aquilo que você ainda não tinha e queria muito ganhar! Aí sim, o sinal da eternidade estava dado. Era o arremate final, com agulha de prata, para bordar no bastidor do tempo o lenço de seda da amizade.
Mas eternidade de criança pode durar pouco! Muito pouco! E a seda, leve, pode puir-se da noite para o dia. Às vezes até sem sinal de esgarçamento! O que é o mesmo que dizer, sem remorsos!
E como doía quando o amigo mudava de amigo! Toda a confiança depositada. Todos os segredos confessados. Todo o tempo gasto. Todos os brinquedos estragados sem grito de reclamação, amenizados por uma raiva represada na usina do “amigos para sempre”.
Bastava um aluno novo na sala, que precisasse de ajuda; um colega novo na rua, que ainda não conhecesse ninguém; o dono da bola de couro que chutava mal e não tivesse com quem jogar; o vizinho solitário que sempre oferecesse carona, e pronto, um amigo podia ser trocado por outro!
Sempre foi assim! Um eterno recomeçar até que os anos fossem etiquetando as pessoas de outro jeito, com tatuagem quase definitiva, difícil de remover (não fosse a possibilidade do raio laser!).
Hoje muitos, especialmente os filhos-únicos continuarão aprendendo a brincar sozinhos, a não dividirem nada, a acreditarem que só se pode ter dois braços, a morrerem (de frustração, é claro) cada vez que não conseguem ser o primeiro. Hoje, o melhor amigo pode ser apenas virtual, como se virtual pudesse ser sempre a nossa urgência do Outro.
E como se faz com a necessidade de abraço? De ombro-travesseiro? De olhar cúmplice que nenhum espelho pode dar? De palavras inesperadas ditas ao pé do ouvido, saídas diretamente do aparelho fonador (sem mediação auto-falante) e exclusivamente endereçadas a si?
Tristes tempos em que as correntes eletrônicas conduzem multidões através das rotas superiluminadas e faiscantes de amigos feitos de ar, de vozes mecânicas, de linhas quilométricas “eme-esse-enizadas” que nenhuma agulha mágica pode costurar!
Triste mesmo é saber que no século XXI o melhor amigo do meu amigo é o seu próprio umbigo!
Celso Sisto, autor deste texto, também é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.


Sem dúvida estou a ler os escritos de um poeta, e amei o “amor botânico”, mas o que seria de mim agora sem esse web meio de leitura?