Infanciamente - a infância de hoje e a infância de outros tempos

Fim de semana intergaláctico

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)...

Celso Sisto*


ANTES, em mil-e-novecentos-vovó-mocinha um fim de semana não era uma viagem  intergaláctica (poderia dizer interopressiva! Ou quem sabe, interguerreira?) na vida dos pais. Para que reinasse, no sacro-santo lar, aquela atmosfera monástica do silêncio e da clausura, que convidava ao cochilo depois do almoço, eles permitiam que as crianças brincassem na rua.

Para ser rua, bastava ser do lado de fora. Iupi!!! Lugar do grito sufocado. Da roupa-velha-furada de brincar. Dos risos cusparentos. Das palavras mais proibidas, sonoras e difíceis de dizer dentro de casa e na presença de um adulto, sem correr o risco da ameaça-pimenta-malagueta. Cocô podia! Merda não! Além do tapa, podia vir a dupla dor-e-castigo, que quase sempre conduzia ao “já para o quarto!”. Terminando de vez com qualquer possibilidade de brincar nas ruas de Galácia, a antiga província romana.

Mas agora, rua não há mais! Não como o espaço mágico da brinquedolândia dos pequenos heróis. A não ser como o campo minado dos medos superurbanos (ai, os tempos dos vilarejos!): são os carros que voam sem asas e com liquidificantes turbinas; são as minas terrestres da guerra dos mocinhos e bandidos (quem é quem, não se sabe bem!) que deixaram catacegas as balas joão-e-maria, perdidas na floresta de vidro e aço; são as pedras que Drummond viu no  meio do caminho, mas agora com o poder de fazerem “crack!” e estilhaçarem em mil pedaços o pote-de-sossego-em-calda de qualquer família.

Os pais modernos tiveram que inventar programas e cardápios para compensarem a falência da rua e a ausência semanal. E quanto maior a culpa, maior a programação: do parque de diversões (no shopping, é claro!) para a lanchonete; da lanchonete para o cinema em 3D; do cinema para a sorveteria; da sorveteria para o aniversário de algum amigo; (se bobear, todo fim-de-semana um amigo da escola faz aniversário); do aniversário para casa, de preferência carregando dois ou três amiguinhos para acamparem na sala.

E quando parece que à noite, no acampamento dos tapetes e almofadas com estrelas e luas de efeitos fitoterápicos, eles vão dormir como anjos, eles querem é comer! Coisas simples, claro: hambúrguer, pipoca, brigadeiro, sorvete de flocos, miojo, mini pastel assado de presunto e queijo, mini esfiha de carne, mini empada de frango, mini paciência para ficar pra lá e prá cá servindo os pestinhas, até que se cansem de exercitarem as mandíbulas. Quer dizer, ainda tem toda uma cantilena de avisos até que fechem de vez a boca pra dormir!

Pronto! Enfim, o sono reparador. Missão cumprida, não? Que nada! Ainda tem o domingo! A sorte é que um dia pode ser do pai e o outro, da mãe. Casais modernos, uai!!

Celso Sisto, autor deste texto, também é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.