A partida de um trem deixando a estação sempre produziu figuras de melancolia no imaginário popular. A Literatura, a Música, o Cinema e a teledramaturgia estão repletos de cenas em que a tristeza é roteirista. São mãos que se desenlaçam, abraços que se afastam, lágrimas que inundam olhares.
A frieza metálica das locomotivas quase sempre parece insensível à leveza desoladora dos lenços pálidos que se agitam no ar até desfalecerem, e então, através da indiferença de janela de um vagão, olhos trocam as últimas partículas de luz. É a despedida, algumas vezes um adeus para sempre… Para quem fica, é só saudade e angústia por dias a fio. Para quem vai, restam as surpresas de uma nova realidade, num lugar distante, às vezes inusitado.
Na Música, todo esse bucolismo é representado deforma poética e singular. Villa Lobos pôs toda a saudade de suas andanças pelo interior do Brasil no “Trenzinho do Caipira” retratando a musicalidade dos sertanejos. A dor da despedida é também passageira, viajante do trem que atravessa o “Morro Velho”, de Milton Nascimento.
Trem das 10 parte rumo ao lúdico
Mas nem toda viagem de trem representa só tristeza. Exemplo disso é o “Trem das 10: Leitura a todo vapor”, projeto conduzido pela ONG Teteia, da cidade de Marechal Deodoro, que vai levar crianças e adolescentes à estação da fantasia numa viagem pelo mundo da Literatura, alcançando escolas públicas daquele município e também da cidade de Maceió.
O Projeto foi lançado oficialmente no dia 10 de março, na sede da instituição e contou com a presença dos autores dos títulos que, divididos em 350 caixas de leitura em formato de trem, totalizarão 3.500 exemplares a serem distribuídos gratuitamente nas escolas públicas das duas cidades.
A iniciativa tem o toque de duas fadas do saber, as escritoras e jornalistas Claudia Lins e Simone Cavalcante, que também assinam os títulos e dividem os vagões desse trem mágico com os escritores alagoanos Tiago Amaral, Ruth Quintela, Marijôse Albuquerque, Socorro Cunha, Leonardo Pimentel, Luciana Fonseca, Fátima Maia e Ricardo Cabús.
Democratização da leitura
Segundo os organizadores do projeto, a iniciativa pode aproximar a criança do livro, constituindo uma ação pioneira no Estado de Alagoas em que 10 autores locais disponibilizam suas obras para a formação das criança. Os livros serão ofertados em visitas dos autores às escolas públicas e irão compor o acervo das bibliotecas escolares.
Para Claudia Lins, a leitura é parte fundamental na formação cultural das crianças. “Que as nossas histórias se misturem a outras histórias, fazendo da leitura um atrativo para a formação cidadã”, disse à ocasião de lançamento do projeto. A escritora Fátima Maia falou do valor da leitura no processo cognitivo da criança enquanto ser social na assimilação da realidade: “Uma sociedade que não tem referência de leitura não vai muito longe”, frisou Maia.
Já Simone Cavalcante observou o aspecto lúdico do livro. “É preciso ver o livro como um brinquedo, e promover esse contato livre da criança para com o livro. Ninguém liga quando a criança quebra um brinquedo. Então, é necessário deixá-la brincar, manusear, folhear, para que ela associe o livro à diversão”, destacou.
Oficinas culturais e literárias
Mas a entrega das caixas de leitura é apenas uma das etapas do projeto. Desde janeiro a ONG Teteia promove oficinas literárias para 200 crianças e adolescentes, e as atividades se estenderão até junho sob o comando da contadora de histórias Marize Sarmento, do grupo Contadores das Carochinhas.
O objetivo do projeto é formar leitores, mas também facilitadores e promotores do saber. Assim, será oferecida formação de mães/pais e educadores em oficinas de capacitação nos dias 31 de março, 14 e 28 de abril e 19 de maio. Para saber a programação, basta acessar o blog do projeto: www.leituraatodovapor.blogspot.com.


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