Do espelho mágico à utopia do livro

Uma bienal do livro em Alagoas é mais do que uma feira de livros, com escritores, editores, livreiros e leitores. Uma bienal do livro num Estado com os piores índices de analfabetismo do país vai além do valor comercial que uma feira significa e se alarga para um sentido simbólico de caldeirão cultural.

Nos corredores da feira literária, sobre tapetes que lembram os pisos de reinos imaginários, o público trafega movido por diferentes vontades. Alguns passam com o desejo de encontrar o livro mais procurado; outros sonham em escrever e publicar a própria história e visualizam seu nome gravado nas capas à mostra; há os que apenas passam, folheam as páginas, viajam nas linhas e seguem adiante, sem os livros nas mãos.

Dentro desse caldeirão fervilham as diferenças que formam a “geografia cultural” de Alagoas. Dos altos castelos de grades e torres às cidadelas de gente sem teto, sem terra e sem livro, entre esses extremos, a Bienal se interpõe como o círculo dos espelhos mágicos. Não há quem por ele passe sem enxergar as imagens distorcidas de um Estado onde a leitura ainda não é acessível a todos.

Mas apesar desses extremos, o livro apimenta os olhares de todos que passam, dos mais distraídos aos mais ávidos pela leitura, dando oportunidade a quem tem fome de saber, motivando a revelação de novos personagens no cenário literário e convidando à leitura quem nunca pôs um livro nas mãos. No meio de todos que circulam no caldeirão da Bienal, famílias, órfãos, pessoas com deficiência física, agricultores podem por alguns momentos sair do cotidiano real e povoar o reino feérico das palavras.

A cada dois anos, o caldeirão esquenta mais um grau e se faz necessário. Onde a literatura vai encontrar lugar melhor para aquecer suas inquietações, escritos, desejos e sonhos? Se em Alagoas as bibliotecas são brandas, as livrarias e as editoras são raras e muitos são os escritores e os possíveis leitores carentes de espaços de diálogo e divulgação, a Bienal se torna maior que uma feira literária para venda de produtos e se interpõe como lugar de passagem e utopia possível para um mundo em que a leitura poderá ser servida a todos sem distinção.