Literatura infantil no Brasil

Simone Cavalcante

Há muitos obstáculos a transpor para que o livro se torne um artigo de fácil acesso, de presença constante na realidade da maioria das pessoas, tomando lugar na mesa do café, na cabeceira da cama, ou na prateleira da estante; atraindo o olhar para as vitrines das livrarias e dos sebos; ou motivando uma descontraída visita a biblioteca. Mas seria possível sonhar com um país de leitores?

Cada vez que alguém abre um livro, uma janela se abre nessa direção. Daí a importância de tornar a leitura um hábito presente no cotidiano de casa e sala de aula. Em contato com textos infantis e infanto-juvenis, as crianças e os jovens descobrem outros mundos abertos ao lúdico, à imaginação e à consciência de mundo. Os livros os transportam para reinos encantados e desencantados, onde podem habitar por alguns momentos e, dessa estada, experimentar as mais variadas sensações.

O texto literário possui, além do valor estético, outras dimensões abertas à exploração de cada leitor. O livro infantil, em especial, tem o privilégio de conter duas espécies de narrativa – a textual e a imagética – o que acentua seu potencial de exploração. É possível contar e recontar o enredo por diferentes trilhas sem a perda do elemento surpresa e das possibilidades de interpretação.

Monteiro Lobato, revolucionário

Mas ainda hoje, mesmo com seus desdobramentos, a literatura infantil sofre uma espécie de preconceito, sendo por vezes considerada uma escrita menor por alguns teóricos desavisados. Caminhando na contramão, esse segmento continua dando grandes saltos, tanto nos aspectos da autoria, riqueza textual e recepção – com o aparecimento de mais profissionais no mercado e a conquista de um maior número de leitores –, bem como no avanço de técnicas de produção (pop-ups, scanimations, recursos sonoros) capazes de atrair até mesmo os olhares e ouvidos daqueles mais distraídos.

No Brasil, quando se fala em livro infantil, salta do senso comum a figura de Monteiro Lobato. Sem sombra de dúvida, ele é um marco no ramo editorial, tendo assumido os papéis de escritor, editor e distribuidor, à frente de empreendimentos de sucesso como a Companhia Editora Nacional. Lobato soube captar as tendências mundiais, implantando métodos de produção novos para o país, como a adoção da capa ilustrada e a criação de uma grande rede de distribuição e circulação, formada por intelectuais, amigos e livreiros. Um desses métodos, por sinal curioso, era o envio de circulares para várias cidades, solicitando a políticos e pessoas conhecidas endereços de pontos de venda onde pudesse escoar sua produção. E do seu networking, nem mesmo o açougue escapava.

Se a personagem Narizinho tinha o nariz arrebitado, Lobato, seu criador, era dono de um bom faro editorial. Foi por suas mãos que surgiram várias coleções e séries de livros que lançaram seus autores no plano nacional. As séries infantis e didáticas tiveram um alcance estrondoso, sendo adotadas pelo sistema público e privado de ensino. Ainda hoje a obra desse escritor tem uma considerável repercussão, confirmada pela reedição de seus livros e pelos remakes de episódios para TV de O Sítio do Pica-pau Amarelo, baseados nos seus enredos. Aqui estão algumas demonstrações do potencial criador deste autor-símbolo, festejado todos os anos no Dia Nacional do Livro Infantil, 18 de abril, data de seu nascimento.

Pensar a literatura infantil além de Lobato e do Dia do Livro é um exercício de abertura para a riqueza desse universo. Antes e depois dele, outros autores e autoras se lançaram ao ofício de escrever livros infantis e buscar formas permanentes de aproximação com o público, tomando, muitas vezes, caminhos desafiadores. É o caso, na atualidade, da escritora Lygia Bojunga que, depois de conquistar prêmios internacionais de peso no segmento infantil e juvenil (Hans Christian Andersen e Astrid Lindgren Memorial Award – ALMA), decidiu abrigar sua produção no selo Casa Lygia Bojunga. Quem sabe, talvez, cansada de um mercado editorial em que o autor parece ser quem menos recebe pelos direitos da criação.

A ousadia de Lygia Bojunga no mercado editorial

A aventura de produzir livros para crianças continua febril como na época de Lobato. O Brasil é, hoje, uma referência nesse segmento literário, tendo um mercado interno bem movimentado por uma rede de editoras com alto grau de profissionalização e concentrada nas capitais e metrópoles, convivendo com uma produção independente distribuída em todo o território. É impressionante também a circulação de títulos fora do país, em traduções que percorrem vitrines de feiras internacionais, como a de Bolonha e Frankfurt.

Seria impossível citar aqui todos os autores, mas talvez você, leitor, já tenha ouvido falar de nomes como Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Elias José, Sylvia Orthof, Ziraldo, Tatiana Belink, Ângela Lago e Maurício de Sousa. Ao lado dessa lista canônica, outros autores despontam na cena nacional, afinal, o trem da história não pode parar. Lenice Pimentel, Jonas Ribeiro, André Neves, Cléo Busatto, Giba Pedroza, Celso Cisto, Almir Mota, Benita Prieto, Daniel Munduruku são alguns dos escritores que, tomando lugar no tabuleiro, formam uma nova conjuntura da literatura infantil brasileira.

Contando a nossa história
Em Alagoas, embora incipiente em termos quantitativos e tecnológicos, a produção literária vem sendo conduzida pelas mãos de escritores e ilustradores com estilos diferentes de contar suas histórias. A produção atual está aberta a diferentes interpretações, fugindo do moralismo e do didatismo que por muito tempo povoaram boa parte da literatura brasileira e universal feita para crianças. Por aqui, a escrita de textos para os pequenos teve o caminho iniciado por nomes como Rosália Sandoval (Curso elementar de português, gramática infantil), Graciliano Ramos (A terra dos meninos pelados), Hildebrando de Lima (Lições do tio Emílio, pela Companhia Editora Nacional) e Judas Isgorogota (Um passeio na floresta e Sapatinhos de prata). Estes últimos eram, por sinal, muito amigos de Monteiro Lobato. No entanto, tendo esses autores consolidado sua trajetória em outros estados do Brasil, suas obras, à exceção dos escritos do Mestre Graça, ficaram, praticamente, desconhecidas pelas novas gerações.

Décadas depois, nos anos 90, surge um divisor de águas: a aparição da escritora Ruth Quintella. O conjunto de sua obra inaugura e melhor representa a fase contemporânea de nossa literatura infantil. Apesar dos cabelos brancos e do corpo franzino, ela vive numa inquietude permanente, utilizando a experiência adquirida ao longo do tempo como professora para disseminar o prazer de ler, assumindo, simultaneamente, os papéis de autora, ilustradora e contadora de histórias.

Daí por diante, novos fios coloridos vão se tecendo na grande renda de palavras e imagens de nossa literatura. Com textos em forma de conto ou poesia, fazem parte dessa rede autoras como Fátima Maia, Luciana Fonseca, Cleo Soares, Socorro Cunha, Marijôse Albuquerque, Juanina Ribeiro, Claudia Lins, Regina Barbosa, Isvânia Marques, Maristela Pozitano, Sara Albuquerque, Eliana Maria, Adélia Souto, Luana Teixeira, Geisa Andrade, Leonardo Pimentel, Tiago Amaral, Ricardo Cabús, Luiz Alberto Machado, Diógenes Tenório, Daniel Libardi.

Ilustração de Pedro Lucena no livro Marina Traquina

Se no texto de literatura infantil as imagens também contam histórias, quem ilustra divide espaço de coautoria do livro nas dimensões visual e narrativa. E nesse sentido, é mais do que justo destacar ilustradores como Pedro Lucena, Weber Salles, Ddaniela Aguilar, Eduardo Menezes, Paulo Caldas, Yuri Ávila, Nataska Conrado, Wagner Bagetti, Vick, Claudio Jorge, Bruno Clériston, Thiago Oli, Chris K, Emanoel Melo, Jefesson Henrique e o Estúdio Alba. Em cada trabalho, eles buscam combinar seu conhecimento visual com o uso de diferentes técnicas e recursos – aquarela, pintura a lápis de cor, manipulação digital, acrílica sobre papel.

Sem editoras comerciais, os autores independentes financiam sozinhos os custos de publicação do seu livro, e uma minoria consegue patrocínio em editais federais estaduais e empresas privadas. Parte dessa produção é absorvida pela Coleção Coco de Roda, mantida pela editora da Imprensa Oficial. Mas falta ainda uma política pública de promoção, aquisição e circulação de livros que, enraizada na educação, valorize as produções locais, regionais e nacionais.

Indo na contramão, organizações sem fins lucrativos como o Sesc desenvolvem cursos, oficinas e encontros literários. A ONG Oásis, com seu projeto Baú de Leitura, vem atuando com formação de contadores de histórias em Palmeira dos Índios e outros municípios do agreste. Em Maceió, a ONG Ideário realiza ações de leitura em grotas, enquanto, em  Piaçabuçu, o Ponto de Cultura Olha o Chico aposta nas rodas de contação. Essas instituições difundem o gosto pela leitura de textos infantis em áreas de vulnerabilidade humana ou em lugares com baixo acesso a equipamentos culturais.

Ciente de sua responsabilidade social, a ONG Teteia, voltada para a formação cidadã, vem tomar lugar também na lista de instituições preocupadas com a leitura. Contando com o apoio do BNDES, do Banco do Nordeste e do Governo Federal, a organização abraçou o projeto Trem das dez – leitura a todo vapor, que consiste na distribuição de  caixas de leitura contendo dez livros de autoras e autores alagoanos e a realização de oficinas de contação de histórias e de capacitação sobre técnicas de leitura literária.

Autores do Projeto Trem das Dez

Com a realização do projeto, no primeiro semestre deste ano, 3.500 exemplares de livros serão distribuídos gratuitamente para escolas públicas de Maceió e Marechal Deodoro. Fazem
parte da caixa os livros: A casa da reinação, de Tiago Amaral, A bela bruxa Lilita, de Ruth Quintella, No reino de Bilinguindone, de Claudia Lins, O gato e o rato de Socorro Cunha, O sequestro de Chiquita, de Leonardo Pimentel, Uma bebê impossível – que saudade da vovó, de Luciana Fonseca, Ventania e o mapa do tesouro, de minha autoria, Tatibitati e os mitos da mata, de Fátima Maia e A galinha saudosa, de Ricardo Cabús.

Além da circulação via projetos culturais, algumas produções circulam nas pouquíssimas livrarias de Alagoas e fora do Estado, quando recebem selos de editoras regionais e nacionais. Por outro lado, seja pela atuação individual dos autores ou pelo trabalho de educadores e distribuidores, parte dessa produção vem tomando, aos poucos, lugar nas salas de leitura e bibliotecas de escolas públicas e privadas. Pelo sistema de adoções, muitos autores vêm incluindo seus livros nos planejamentos pedagógicos das escolas, havendo em abril uma grande concentração de convites para que participem de feiras literárias e bate-papos com as crianças. Mas o livro não deveria estar na escola e na vida como o pão de cada dia, servido durante todo o ano em projetos tomados de contação de histórias e visitas a biblioteca, a exemplo de ações como Lê pra mim?, Histórias da Tia Felícia e Leitor Nota 100.

Se há livros, como formar mais leitores?

Para chegar às mãos dos pequenos leitores, o livro infantil percorre uma cadeia produtiva com várias etapas, impulsionada por ações como as políticas de aquisição e circulação do livro do Ministério da Educação (MEC), o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), os selos de recomendação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e os editais e concursos literários. Mas o acesso limitado e a falta de estímulo à leitura ainda são problemas a serem enfrentados para que a leitura literária se torne um hábito consolidado no país e, em Alagoas, particularmente.

Se os programas do MEC para compra de livros funcionam como apregoam as propagandas governamentais, como saber de que modo esse acervo está sendo utilizado em sala de aula? Será que existem ações de leitura efetivas e sistemáticas, ou as bibliotecas continuam sendo fechadas a cadeado como depósito de livros? As crianças podem circular livremente nas salas e cantos de leitura, ou devem ficar lá na hora do recreio como punição pelo mau comportamento? O livro de ficção infantil tem espaço garantido nas prateleiras, ou dão lugar unicamente a textos didáticos? Os professores insistem em ensinar literatura como meio de exploração de aspectos da língua portuguesa ou como linguagem isenta de qualquer obrigatoriedade?

Como diz o escritor Saramago, “Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Questionar a prática da cultura literária no ambiente escolar ajuda a compreender por que o ato de abrir um simples livro de contos de fada, folheá-lo e interpretá-lo, para muitos, parece ser algo distante ou trágico. Ao falar de livros infantis, a seleção dos melhores e mais apropriados conteúdos não caminha sem a discussão da forma como essas histórias tocam o imaginário e o repertório diferenciado de saberes dos alunos.

Marize Sarmento, do grupo Contadores das Carochinhas

A exploração de novos sentidos no conteúdo lido pela criança, a capacidade de alargar seu olhar para a relação da obra no tempo e lugar, a ligação dela ao fio do encantamento de uma
história para toda a vida, dependem da condução de vários fatores. Um deles é preparar educadores e bibliotecários para o desafio da mediação de leitura. A Biblioteca Pública de Alagoas e de outros estados, apoiadas pelo Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), já vem realizando seminários e cursos nessa direção. O Sesc e grupos como a Trupe Gogó da Ema, Contadores das Carochinhas e Trupe Navegantes, preocupam-se em difundir técnicas de contar histórias.

Mas chama a atenção o fato de poucas universidades e faculdades apostarem na literatura infantil e juvenil como disciplina de curso. Afinal, sem os recursos da formação, como os educadores saberão empregar métodos cativantes para a conquista de novos leitores? E de modo mais absurdo, como justificar o fechamento de bibliotecas escolares para darem lugar a laboratórios de ciência, sala de aula e outros fins, como aconteceu, no ano passado, com a Biblioteca do Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa)?

Daí a urgência de marcos regulatórios, como a criação de planos nacionais e leis estaduais de incentivo ao livro e à leitura, como o fez os estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Dessa forma, escritores, leitores, editores, distribuidores, livreiros, educadores e agentes literários, terão mais força para cobrar dos governantes investimentos permanentes na área. A lei impede o fechamento de bibliotecas e motiva novas inaugurações; incentiva a formulação de projetos de leitura; e impulsiona a revisão de algumas metodologias ultrapassadas no cotidiano da escola pública e privada que, longe de contribuírem para a formação de novos leitores, criam um fosso entre as crianças e os livros.

Enquanto as mudanças caminham, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, prestes a alcançar sua terceira edição ainda este mês, vem apontando alguns dados positivos nos últimos anos. Primeiro, é o fato de a leitura ser entendida como algo prazeroso para a faixa etária de crianças até seis anos de idade. Segundo é a influência das mães no gosto dos filhos pelos livros; às vezes, utilizando somente a oralidade como via, considerando que muitas delas nem concluíram os estudos. Ler ou contar de memória histórias dentro de casa, bem como investir em projetos sistemáticos de leitura na sala de aula, são passos decisivos para o ingresso da criança numa espécie de cidadania literária.

Ilustração de Pedro Lucena

Essa cidadania nada mais é do que o seu direito de ter acesso a livros, de ficção, sobretudo, em diferentes gêneros e suportes, do papel ao meio digital; de poder curtir momentos prazerosos de descoberta das histórias, sem se submeter a métodos tradicionais que insistem em associar literatura com exercícios de gramática ou a questionários limitadores, verdadeiros “purgantes” e “pílulas” que nem mesmo Jeca Tatu ou Emília, personagens famosos de Lobato, teriam coragem de provar.

Se tem um vocábulo capaz de responder o que é literatura, seja para criança ou para adulto, é a palavra liberdade. E tudo leva a crer: a liberdade de escolha e interpretação de obras, a criação de leis efetivas, a convivência com os livros nos espaços da vida pública e privada, são janelas abertas para a democratização da leitura literária no Brasil.

Texto publicado pela primeira vez no Caderno Contexto, do Jornal Tribuna de Alagoas.